/Laura Vicentini leva o nome de Batatais como destaque em sustentabilidade e economia circular

Laura Vicentini leva o nome de Batatais como destaque em sustentabilidade e economia circular

Confira a entrevista com a agrônoma de propriedade batataense que leva o nome da cidade para eventos representativos dentro e fora do país sobre seu trabalho. De mudas pré-brotadas a cachaça orgânica, Laura inovou na forma de produção e aproveitamento da cana-de-açúcar

Laura Vicentini

Laura Vicentini, 38 anos, nasceu em Ribeirão Preto (SP) e sua essência sempre foi ligada ao meio rural. Tanto a família materna como paterna tinham fazendas voltadas à cafeicultura. Agrônoma de formação, junto com seu marido, Rodrigo Spina, vem se destacando na produção e comercialização de mudas pré-brotadas de cana-de-açúcar. Com visão diferenciada também criou a cachaça orgânica SôZé Sustainable Cachaça. A ideia surgiu como forma de aproveitar os resíduos gerados na produção das mudas. Em entrevista concedida nesta semana, Laura detalhou sua trajetória, que é marcada pelo empreendedorismo.

JC – Você pode nos contar um pouco mais sobre como surgiu a ideia de transformar sua fazenda canavieira em um modelo de sustentabilidade?
Laura Vicentini: Nós começamos a produção de mudas pré brotadas em 2017, visando atender um espaço que havia oportunidade, no mercado sucroalcooleiro. Desde aquele momento, na construção, já miramos captação da água das chuvas, proteção dos terraços (para conservação do solo), uso de bioinsumos no manejo integrado de pragas… então podemos dizer que a nossa empresa agrícola, Spinagro, já nasceu com um pé bem fincado na sustentabilidade. A produção da cachaça com a empresa nascida dentro da Spinagro, a Spinalcool, foi a cereja do bolo na garantia do uso de todos os produtos, insumos e resíduos da fazenda, de maneira circular, responsável, e visando gerar renda e agregar valor aos produtos aqui feitos.

JC – Quais foram os principais desafios que você encontrou ao aplicar técnicas de economia circular na produção de cana-de-açúcar, e como você os superou?
Laura Vicentini: As dificuldades ainda surgem, dia a dia. Talvez o que mais tenha impactado no começo foi a contratação e manutenção da equipe, que agora roda bem alinhada e comprometida. Mas há também desafios como “timing” – às vezes um insumo necessário naquele momento não está disponível pela produção anterior, então temos que pensar no casamento de todas as operações, para que não haja falta nem ociosidade da estrutura, de insumos e de resíduos.

JC – Além da produção de cachaça orgânica, que outras inovações você implementou na sua fazenda que ajudaram a reduzir o impacto ambiental e melhorar a rentabilidade?
Laura Vicentini: A principal prática, que gerou redução nos custos imediatamente, e alto ganho na sustentabilidade, foi o uso de nosso biocomposto (produzido na fazenda a partir da decomposição de nossos resíduos e das granjas da fazenda) como fonte de nutrição dos canaviais. Tivemos a liberdade de não depender mais de compra de adubos químicos – e ficar na mão de altos e baixos dos preços de mercado – e claro, nosso ganho no solo foi sentido sensivelmente. Ano a ano temos a constatação numérica da evolução da qualidade de nosso solo (contabilidade agroambiental), atestando que nosso composto regenera, melhora a estrutura física e aumenta vida da macro e microbiota presentes nele.

JC – O que você considera ser a principal diferença entre a cachaça tradicional e a cachaça orgânica em termos de sabor e impacto ambiental?
Laura Vicentini: Quanto ao impacto ambiental, a diferença é a quantidade de produtos químicos que deixam de ser usados, pois substituímos por bioinsumos.
O sabor daí temos amplas variações, causadas não só pela substituição desses insumos, mas também pelo bom processo de produção da nossa cachaça. Além do canavial orgânico, temos a destilação ocorrendo em alambique, que separa adequadamente as frações de cabeça, coração e cauda. Em cada uma dessas frações, há características próprias, e o mais desejável é que se consuma somente o coração – parte mais nobre do processo.
Na SôZé Sustainable cachaça, envasamos somente o coração, pois temos a oportunidade de redestilar cabeça e cauda, e obter etanol usado em nossa própria frota leve.
Assim os ganhos sensoriais são altíssimos, pois nosso cliente degusta somente o melhor da boa cachaça de alambique, de quebra orgânica.

JC – Como você vê o impacto que sua carreira tem trazido para a imagem de Batatais no cenário nacional e internacional?
Laura Vicentini: Espero muito que seja um impacto positivo, pois mostramos que é possível produzir, empregar, vender e ter ótimos produtos a partir de uma lavoura bem manejada, sustentável. Algumas pessoas da cidade nos visitam e comentam que desconheciam esse tipo de manejo, estrutura, e mesmo de oportunidade de utilizar tudo de maneira circular e rentável. Falar de nossa cidade nos eventos que participamos me enche de emoção, pois fazemos algo que tem visibilidade mundial para nossa produção de impacto local, no trabalho, no ambiente, no nosso social.