
Ontem (29/06/2026) foi um daqueles dias que a gente sabe que vai guardar para sempre na memória.
Assisti ao jogo da Seleção ao lado dos meus dois netinhos gêmeos, que nasceram em dezembro do ano passado. Eles ainda são pequenos demais para entender o que é uma Copa do Mundo, quem fez o gol ou por que os adultos comemoram tanto.
Mas, enquanto olhava para eles vestindo verde e amarelo, percebi que aquele jogo era muito mais especial para mim do que para eles. Ainda sem compreender o significado de uma Copa do Mundo, eles provavelmente não se lembrarão daquela tarde. Eu, ao contrário, jamais vou esquecê-la. Porque, naquele instante, não estava apenas assistindo ao Brasil entrar em campo. Estava vendo nascer mais uma memória da nossa família.
Naquele momento, me lembrei do meu pai. Guardo lembranças das madrugadas em frente à televisão, das conversas antes dos jogos, da expectativa que tomava conta da casa e daquele sentimento de que o país inteiro respirava no mesmo ritmo. Décadas depois, sentamos novamente lado a lado para colar figurinhas da Copa, revivendo uma paixão que atravessou quase um século. Ontem, olhando para meus netos, tive a sensação de que essas memórias acabavam de encontrar uma nova geração.
Existem cores que não são apenas cores. Elas carregam histórias, lembranças, vozes, cheiros e até silêncios. No caso do Brasil, o verde e amarelo tem esse poder curioso: basta aparecer em uma camisa, em uma bandeira ou em uma rua enfeitada para mexer com algo que parece guardado bem fundo dentro da gente.
Durante uma Copa do Mundo, essas cores ganham vida própria. Elas aparecem nas janelas, nos carros, nas escolas, nas empresas, nos rostos pintados das crianças e nas camisas tiradas do armário como se fossem amuletos. De repente, o país parece vestir uma mesma emoção.
Talvez isso aconteça porque o futebol, para nós, nunca foi só futebol. Ele é memória de família. É jogo assistido com os pais e os avós. É criança perguntando por que todo mundo grita ao mesmo tempo. É expediente adaptado, vizinho soltando foguete ou gritando gol antes mesmo da televisão confirmar o gol.
O verde e amarelo emociona porque nos devolve a um lugar afetivo.
É curioso pensar que nosso cérebro funciona quase como um álbum de figurinhas invisível. Cada grande momento vivido vai colando uma imagem dentro da memória. Um gol, uma comemoração, uma derrota, uma final, uma camisa, uma música, uma bandeira. Com o tempo, tudo isso se mistura. Quando vemos novamente aquelas cores, não enxergamos apenas verde e amarelo. Enxergamos pedaços da nossa própria história.
Há também um fenômeno cada vez mais raro: o sentimento de pertencimento coletivo. Em um país tão diverso, com tantas diferenças regionais, sociais e culturais, a Seleção Brasileira tem o poder de criar uma pausa. Durante noventa minutos, milhões de pessoas torcem na mesma direção. O “eu” dá lugar ao “nós”.
A tecnologia mudou muito a forma como vivemos esse sentimento. Antes, a emoção ficava concentrada na televisão da sala, no rádio, na rua enfeitada e na conversa do dia seguinte. Hoje, o gol acontece no campo e se espalha instantaneamente pelos grupos de WhatsApp, pelas redes sociais, pelos aplicativos que mostram estatísticas em tempo real e até por inteligências artificiais capazes de prever probabilidades, analisar jogadas e comentar partidas.
Curiosamente, quanto mais tecnológica fica a Copa, mais percebemos que a emoção continua completamente humana. O algoritmo pode calcular a chance de uma vitória, mas jamais conseguirá medir o brilho nos olhos de uma criança vestindo a camisa da Seleção ou o coração de um avô imaginando as lembranças que ainda serão construídas.
No fundo, o verde e amarelo não fala apenas de futebol. Fala de infância, de família, de esperança, de identidade e da capacidade que um povo tem de sonhar junto.
Ontem, meus netos talvez não tenham entendido por que a casa vibrava a cada lance. Talvez nem se lembrem daquele jogo quando crescerem. Mas eu me lembrarei deles. E guardarei para sempre a imagem de dois meninos, vestidos de verde e amarelo, enquanto mais uma Copa escrevia o seu primeiro capítulo na história deles.
Espero que esta tenha sido apenas a primeira de muitas Copas que viveremos juntos. Que, nos próximos anos, eles já possam perguntar, comemorar, sofrer, discutir um gol perdido e celebrar uma vitória. E que, quando forem adultos, descubram que o que realmente ficou não foram apenas os resultados, mas os momentos compartilhados.
Porque algumas tradições não são ensinadas. Elas são vividas.
E eu mal posso esperar pelo próximo jogo, pela próxima Copa e pelas próximas memórias que ainda construiremos juntos.
Que assim seja!






