/Michael Jackson – Quando a crítica esquece de olhar para a tela

Michael Jackson – Quando a crítica esquece de olhar para a tela

Existe um fenômeno curioso acontecendo nas salas de cinema. O público entra, senta, assiste, se emociona. A crítica entra já com um roteiro paralelo nas mãos. E, em algum ponto entre a primeira cena e os créditos finais, essas duas experiências deixam de ser a mesma.
O filme sobre Michael Jackson não escapou desse destino. Parte das análises publicadas nas últimas semanas não se concentrou exatamente no que está na tela, mas no que deveria estar fora dela. Há textos que classificam a obra como “higienizada”, outros que a tratam como um produto “incapaz de lidar com o legado completo do artista”. Não são críticas irrelevantes. Pelo contrário, são pontos legítimos — mas que dizem mais sobre a expectativa de quem assiste do que sobre a proposta do filme.
Porque existe uma diferença essencial que parece ter se perdido no meio do caminho: um filme não é uma biografia definitiva. É um recorte.
E todo recorte carrega uma escolha.
Ao decidir contar a história do artista, da construção do fenômeno musical, da obsessão pela performance e pela perfeição, o filme abre mão de abarcar todas as camadas possíveis da vida de Jackson. Isso não é, automaticamente, uma falha narrativa. É uma decisão de linguagem. Pode ser questionada, claro. Mas precisa ser analisada como escolha, não como omissão obrigatoriamente condenável.
Parte da crítica, no entanto, parece partir de um ponto diferente. A expectativa não é assistir a um filme, mas a um acerto de contas. E quando esse acerto não acontece, a obra passa a ser vista como incompleta — não por aquilo que constrói, mas por visões pessoais.
Esse é um debate válido. Mas ele precisa ser tratado com precisão.
Quando se menciona, por exemplo, que Jackson foi absolvido em tribunal em 2005, isso é um fato jurídico. Quando se traz à tona o impacto de produções como Leaving Neverland, também se está lidando com um elemento real do debate público — ainda que não tenha sido objeto de julgamento formal. São camadas distintas de uma mesma história, e reduzi-las a um único eixo empobrece a discussão.
O filme escolhe não mergulhar profundamente nesse território. E é exatamente aí que a crítica se divide: alguns enxergam isso como limitação, outros como foco narrativo.
Mas há um ponto que curiosamente recebe menos atenção do que deveria.
A construção artística.
Existe um nível de entrega no trabalho dos atores que beira o obsessivo. Não se trata apenas de interpretar um personagem, mas de recriar um dos artistas mais reconhecíveis da história — nos gestos, na respiração, no tempo exato de cada movimento. Há uma precisão quase cirúrgica na forma como cada cena tenta capturar não apenas o que Michael fazia, mas como ele fazia.
E isso não nasce do acaso.
Relatos de bastidores indicam meses de preparação física, estudo minucioso de performances, repetição exaustiva de coreografias, análise de registros históricos quadro a quadro. Não é imitação. É reconstrução. Existe ali um compromisso com a perfeição que dialoga diretamente com o próprio Jackson, conhecido por exigir o impossível de si mesmo.
Ignorar esse aspecto em nome de um debate externo ao filme é, no mínimo, uma escolha curiosa.
Porque o cinema também é feito disso: de gente que se dedica ao limite para entregar uma experiência que funcione dentro da tela.
Outro ponto que costuma aparecer com frequência nas críticas é a associação entre a figura pessoal de Jackson e o valor artístico da obra. Aqui, talvez, resida uma armadilha comum. Misturar esses dois planos pode gerar análises moralmente carregadas, mas conceitualmente frágeis. A relevância cultural de um artista não anula controvérsias. Mas as controvérsias, por si só, também não esgotam o significado de sua obra.
Separar essas dimensões não é defender nem acusar. É simplesmente analisar com clareza.
E talvez seja justamente essa clareza que esteja em falta em parte do debate.
Criticar faz parte do jogo. Sempre fez. Mas quando a crítica abandona o objeto central — o filme — para se apoiar majoritariamente no que está ao redor dele, ela corre o risco de perder o próprio ponto de partida.
No fim, a pergunta que permanece é simples, quase incômoda:
Estamos analisando o filme que foi feito… ou o filme que gostaríamos que tivesse sido feito?
Porque entre esses dois existe um abismo.
E é exatamente dentro dele que, muitas vezes, a crítica se perde — enquanto o público, lá embaixo, ainda está apenas assistindo.