
No último domingo, sentei à mesa para colar figurinhas da Copa do Mundo. Até aí, nada muito diferente do que faço há décadas. A diferença estava ao meu lado.
Meu pai, 91 anos, participava da tarefa com a mesma dedicação de quem já completou muitos álbuns ao longo da vida. Enquanto separávamos as figurinhas e procurávamos os espaços vazios, pensei em quantas Copas do Mundo cabem na memória de uma pessoa que viu o Brasil conquistar cinco títulos mundiais.
Foi impossível não perceber como algumas coisas mudaram e outras permanecem exatamente iguais.
Durante muito tempo, ser colecionador significava carregar uma lista de papel dobrada no bolso. Nela estavam anotadas, com letra miúda, as figurinhas que faltavam e as repetidas disponíveis para troca. Quem era mais organizado usava caneta de cores diferentes. Quem era mais cuidadoso plastificava a lista.
Hoje existe uma nova geração de colecionadores.
Alguns utilizam aplicativos tão avançados que basta apontar a câmera do celular para uma figurinha. Em um piscar de olhos, o sistema informa se ela já está no álbum, se é repetida, quantas unidades existem e muito mais. É quase como se o álbum tivesse ganhado inteligência própria.
Os encontros de troca também evoluíram, mas estão longe de desaparecer. Pelo contrário. Eles continuam acontecendo em praças, shoppings, escolas, empresas, condomínios e nas casas dos amigos. A diferença é que agora muitos desses encontros começam antes mesmo das pessoas se encontrarem. Um grupo de WhatsApp avisa quem tem a figurinha procurada, um aplicativo identifica as repetidas e, pouco depois, lá estão os colecionadores frente a frente, negociando, conversando e compartilhando histórias.
Porque, no fundo, a troca de figurinhas nunca foi apenas sobre completar um álbum. Ela sempre foi uma desculpa para reunir pessoas.
Mas existe algo curioso nessa evolução toda.
A tecnologia resolveu quase todos os problemas do colecionador. Ela organiza, contabiliza, compara e sugere. O que ela não consegue substituir é a experiência.
Não consegue reproduzir a alegria de abrir um pacote recém-comprado. Não consegue imitar a pequena decepção quando aparecem três repetidas seguidas. Nem a comemoração quando finalmente surge aquela figurinha difícil que parecia impossível de encontrar.
E, principalmente, não consegue substituir as histórias.
Enquanto colávamos as figurinhas, meu pai lembrava de outras Copas, outros álbuns e outros momentos. Em poucos minutos, a mesa deixou de ser apenas um lugar para organizar cromos. Transformou-se numa pequena máquina do tempo.
Talvez seja esse o verdadeiro valor de um álbum da Copa.
As figurinhas contam a história dos jogadores, das seleções e dos campeonatos. Mas, sem que percebamos, acabam registrando também a nossa própria história. Elas guardam quem estava conosco, onde morávamos, quais eram nossos sonhos e até quem sentou ao nosso lado para ajudar a completar uma página.
Entre listas de papel e aplicativos inteligentes, entre cola e telas de celular, o colecionismo continua sendo uma das mais belas formas de conectar gerações.
No meu caso, pelo menos, o álbum deste ano já está completo em uma parte importante: a memória de ter passado uma tarde de domingo colando figurinhas ao lado do meu pai, que aos 91 anos ainda encontra prazer em um ritual que atravessou décadas.
E talvez essa seja a maior lição que um simples álbum pode nos ensinar. A tecnologia muda, os métodos evoluem, os aplicativos ficam cada vez mais inteligentes. Mas algumas coisas continuam valendo exatamente pelo mesmo motivo de sempre: porque aproximam pessoas.
Essa é uma figurinha que nunca ficará repetida.






