Para o geógrafo Kauê Lopes dos Santos, embora programas de renegociação sejam vitais para a economia, eles podem consolidar uma “cultura de débitos” sem resolver o problema estrutural do crédito no Brasil.
O lançamento da segunda fase do programa Desenrola pelo governo federal nesta semana traz à tona um debate sobre a eficácia das políticas públicas de combate à inadimplência. O pesquisador Kauê Lopes dos Santos, autor do livro Parcelado e professor da Unicamp, avalia que, apesar de o programa funcionar como uma importante “injeção de renda” e demonstrar a atenção do Estado ao problema, ele pode ter efeitos limitados.
O Jogo do Curto Prazo
O pesquisador, que estuda o comportamento financeiro nas periferias de São Paulo, reconhece a importância da iniciativa para permitir que a população volte ao mercado de consumo. Contudo, ele adverte para o risco de se criar uma lógica de resolução paliativa. “Pode criar uma lógica de resolver sempre no curto prazo, sem buscar entender as questões mais estruturais”, afirma o geógrafo. Segundo ele, a renegociação constante pode acabar “complexificando o jogo” em vez de simplificá-lo.
O Crédito como Modo de Vida
O pesquisador destaca que o uso do crédito e do parcelamento tornou-se o modus operandi do orçamento doméstico brasileiro. O endividamento recorde, portanto, não é um acidente, mas parte da organização financeira das famílias.
O Desenrola 2.0, lançado oficialmente na última segunda-feira (04/05), foca em brasileiros com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), oferecendo descontos agressivos e juros reduzidos. No entanto, para especialistas como Santos, o desafio permanece em como educar e estruturar a economia para que o “Brasil dos boletos” não precise viver em um ciclo perpétuo de renegociações. Fonte: BBC Brasil





