
Quem me conhece sabe que sou apaixonado por mitologia grega. Desde muito jovem, essas histórias despertam minha imaginação e sempre foram referencias nos altos papos com meus velhos amigos. Não apenas pelos deuses poderosos, criaturas fantásticas ou batalhas épicas, mas porque, por trás de tudo isso, sempre existiram histórias profundamente humanas.
Agora que A Odisseia, de Christopher Nolan, chegou aos cinemas.
Afinal, poucas obras atravessaram quase três mil anos emocionando tantas gerações quanto a jornada de Odisseu.
Depois de lutar durante dez anos na Guerra de Troia, Odisseu finalmente parte para casa. Mas os deuses tinham outros planos. A viagem de retorno, que deveria durar poucas semanas, transforma-se em mais dez anos de tempestades, monstros, sereias, gigantes e desafios inimagináveis. Quando finalmente reencontra Ítaca, já se passaram vinte anos desde que ele deixou sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco.
Mas seria um enorme engano imaginar que A Odisseia é apenas uma aventura.
Ela é, acima de tudo, uma das mais belas histórias de amor já escritas.
Enquanto Odisseu enfrenta todos os perigos do mundo conhecido, Penélope permanece em Ítaca esperando seu retorno. Vinte anos de espera. Vinte anos recusando pretendentes, sustentando a esperança e encontrando uma maneira silenciosa de resistir: durante o dia tecia um grande manto; durante a noite desfazia cada ponto, adiando uma decisão que seu coração jamais aceitaria.
Sempre achei essa uma das imagens mais bonitas da literatura.
Odisseu luta contra monstros.
Penélope luta contra o tempo.
Nenhum dos dois desiste.
Talvez seja justamente por isso que essa história nunca envelheça.
Todos nós enfrentamos nossos próprios ciclopes. Todos nós ouvimos sereias oferecendo caminhos mais fáceis. Todos nós atravessamos tempestades que parecem intermináveis. E, em algum momento da vida, todos esperamos encontrar novamente o nosso porto seguro.
Christopher Nolan é um diretor que gosta de explorar o tempo, a memória e as escolhas humanas. Basta lembrar de Interestelar, A Origem e Tenet. Não consigo imaginar uma história mais apropriada para seu estilo do que A Odisseia. Mas, independentemente da grandiosidade das cenas, acredito que o maior espetáculo continuará sendo o mesmo de quase três mil anos atrás: a capacidade de uma boa história tocar o coração das pessoas.
É isso que sempre me fascinou na mitologia grega.
Ela nunca foi apenas sobre deuses.
Ela sempre foi sobre nós.
Sobre nossas virtudes e fraquezas. Sobre coragem e medo. Sobre perder o caminho e continuar caminhando. Sobre descobrir que a verdadeira vitória não está em derrotar monstros, mas em nunca deixar de acreditar que existe alguém, ou algum sonho, esperando por nós no fim da jornada.
Talvez seja por isso que A Odisseia continue viva depois de tantos séculos.
Porque algumas histórias não pertencem ao passado.
Elas pertencem à natureza humana.





