Censo do IBGE revela panorama religioso nas cidades da região de Ribeirão Preto; em Batatais, fé católica ainda predomina, mas cenário aponta para maior diversidade.
O mais recente Censo Demográfico do IBGE, realizado em 2022, e divulgado nos últimos dias, revelou um retrato detalhado da religiosidade nas 66 cidades da região administrativa de Ribeirão Preto (SP). Entre elas, Batatais chama atenção por manter uma maioria católica, mas já exibe sinais claros de transformação em seu perfil religioso.
De acordo com os dados, 64% da população de Batatais se declara católica, mantendo a cidade acima da média nacional (56%) e também da média regional (58%). Em segundo lugar estão os evangélicos, com 22% dos habitantes, seguidos por pessoas sem religião (5%), espíritas (5%), além de representantes de umbanda e candomblé (3%) e outras crenças.
Essa distribuição reafirma a presença histórica do catolicismo no município, refletida em marcos como o Santuário do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, símbolo religioso e arquitetônico da cidade. No entanto, a pluralidade religiosa tem se intensificado: templos evangélicos de diversas denominações crescem visivelmente, especialmente em bairros periféricos e comunidades vulneráveis.
Diversidade religiosa e secularização
Para o professor e doutor em Ciências da Religião, José Antônio Correa Lages, ouvido em reportagem do G1, o crescimento das igrejas evangélicas se deve em grande parte ao papel social dessas instituições. “Essas igrejas oferecem um espaço de pertencimento e apoio. O crescimento se dá, muitas vezes, pela dinâmica de acolhimento das comunidades evangélicas nas periferias”, explica o especialista.
Outro dado relevante é o aumento das pessoas sem filiação religiosa. Embora em Batatais esse grupo represente 5%, em cidades próximas, como Barrinha, esse índice chega a 14%, refletindo um processo de secularização associado ao avanço da escolarização e à maior exposição a diferentes visões de mundo.
Presença de outras crenças
Além dos católicos e evangélicos, a cidade abriga pequenos, mas significativos grupos de outras religiões. Os espíritas, por exemplo, representam 5% da população local — índice relativamente alto em comparação com a média nacional. Já umbanda e candomblé têm presença mais discreta, mas ainda perceptível no tecido religioso da cidade, com 3%.
Batatais em transformação
Batatais segue, assim, o movimento nacional de diversificação religiosa, mesmo mantendo suas raízes tradicionais. A fé permanece um elemento central na vida de muitos moradores — mas agora dividida entre crenças mais diversas, práticas mais individualizadas e, para alguns, o distanciamento da religião institucionalizada.
Com isso, Batatais se consolida não apenas como guardiã de um legado católico, mas como retrato vivo das transformações culturais e espirituais que atravessam o Brasil do século XXI.
O Pastor Juliano Dias, da Igreja Lagoinha de Batatais, atendeu prontamente nosso questionamento sobre a pesquisa divulgada pelo IBGE e disse acreditar que esse tipo de amostragem até aponta algum norte para onde olhar, mas a confiabilidade é bem fragilizada e até descredibilizada. “No que diz respeito à pesquisa religiosa, geralmente ela é feita de forma muito abrangente e não específica. Um grande exemplo é a forma que a maioria dos católicos se denominam. A grande parte se denomina como católico mas não pratica a religião, assim, essa nomenclatura é simplesmente nominal, outras vezes representa uma “fé emprestada” da família. Essa minha afirmação não tem sentido pejorativo, até mesmo porque essa maneira de se denominar, infelizmente hoje em dia está acontecendo também entre os evangélicos. Assim, já temos também alguns Evangélicos apenas nominais. Outro fato muito interessante é a respeito das pessoas ligadas às igrejas “pseudocristãs” ou igrejas exclusivistas, pois estas não se rotulam como evangélicas, porém todas elas são oriundas da mesma. Sobre os Agnósticos, é óbvio que não estão crescendo, o que houve foi que um movimento dos “sem-igreja” ou “desigrejados” acabou surgindo na mídia e eles se denominam sem religião, quando na verdade acabam sendo (em muitos casos) mais crentes e praticantes do que muitos religiosos. É muito provável que exista um grande paradoxo na pesquisa no que se refere aos aproximados 10% dos “sem religião”, essa probabilidade é que muitos deles sejam mais “crentes” ou cristãos que muitos dos que se rotularam. Por fim, acredito que a melhor forma de conhecer de fato esta realidade seja através da prática e frequência com que as pessoas são atuantes em sua fé dentro da sua comunidade local”, afirmou.
Já o padre Marcos Roberto Carlos, da Paróquia de São Sebastião, disse que não houve, ao seu ver, uma análise mais aprofundada da pesquisa divulgada recentemente. “No entendimento da Igreja, não se observa uma redução real no número de fiéis católicos no Brasil. Como exemplo, podemos citar Santa Rita do Passa Quatro, cidade de nossa região, que possui uma igreja com capacidade para 5 mil pessoas — e que se mantém frequentemente lotada durante as celebrações. Além disso, vemos sinais claros da vitalidade da fé católica: estamos recebendo na cidade de Trindade, em Goiás, um sino com impressionantes 50 toneladas. Recentemente, foi inaugurada uma imagem de Nossa Senhora Aparecida com altura superior à do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, um marco simbólico da devoção mariana no país. Outro fato significativo foi a eleição do Papa Leão XIV, há cerca de 30 dias, que atraiu uma multidão à Praça São Pedro, em Roma — completamente lotada por fiéis de todo o mundo, demonstrando a força global da Igreja. Hoje, os católicos representam aproximadamente 20% da população mundial, ou seja, cerca de 1,4 bilhão de pessoas. E mais importante do que os números absolutos, é a renovação da fé expressa pelo crescente interesse nos sacramentos: temos observado um aumento considerável na procura pelo batismo de adultos e crianças, pela crisma de jovens e adultos, e também pelo matrimônio. Nos colocamos à disposição para maiores esclarecimentos e para aprofundar este diálogo com base na realidade vivida nas comunidades.”, finalizou.





