/Palacete da antiga Casa da Cultura terá restauração completa e pode se transformar em espaço turístico, cultural e de hospedagem

Palacete da antiga Casa da Cultura terá restauração completa e pode se transformar em espaço turístico, cultural e de hospedagem

O histórico Palacete da Praça Cônego Joaquim Alves, conhecido popularmente como Casa da Cultura de Batatais, deverá passar por um amplo processo de restauração após a formalização da doação do imóvel da família herdeira para a empresa FFM Participação e Serviços LTDA, fundada em 10 de setembro de 2014, com sede em Ribeirão Preto.
O prédio, tombado pelo CONDEFAT e considerado um dos principais patrimônios arquitetônicos do município, será alvo de estudos técnicos, levantamentos históricos e projetos especializados antes do início efetivo das obras.
Em entrevista ao Jornal da Cidade, o engenheiro de produção Ricardo César Massaro, responsável pela coordenação do projeto, detalhou como surgiu o interesse da empresa em assumir o imóvel, as condições encontradas no prédio, os desafios técnicos do restauro, as possíveis destinações futuras do espaço e a proposta de preservação integral das características originais do palacete.
Segundo ele, o trabalho envolverá uma equipe multidisciplinar formada por arquitetos, engenheiros, historiadores e arqueólogos, além de passar por análise dos órgãos de preservação patrimonial e cumprir todas as exigências técnicas, jurídicas e de acessibilidade previstas na legislação atual.

Ricardo César Massaro -Foto Instagram: @rodrigocesarbatatais

JC – Como surgiu o interesse da empresa em assumir o imóvel histórico conhecido como Casa da Cultura em Batatais?
Ricardo César Massaro – Primeiro, a gente entende que tudo aconteceu no momento certo. Essa história começou mais ou menos em junho do ano passado, a partir de uma consulta feita pelo Dr. Dirceu, advogado amigo nosso, que perguntou sobre o interesse em assumir o imóvel. Eu já tinha esse sonho e esse ideal de trabalhar com a restauração de imóveis históricos. Existiam tentativas anteriores de doação para outras instituições, como a Cúria e a própria Prefeitura, mas o processo enfrentava dificuldades jurídicas e financeiras. A partir daí, esse advogado se comprometeu com a parte jurídica e eu fiquei responsável pela elaboração dos projetos necessários para que o imóvel pudesse ser restaurado, cumprindo toda a legislação exigida.

JC – Em quais condições o prédio foi recebido e quais são os principais desafios técnicos identificados nesse processo de restauração?
Ricardo César Massaro – O imóvel foi encontrado em condições bastante delicadas, com sujeira, sinais de invasão, pichações, janelas quebradas e diversos danos acumulados ao longo dos anos. Todo esse levantamento faz parte de um relatório técnico de danos e patologias que será apresentado ao público nos próximos dias como um material histórico, acadêmico e didático sobre o palacete.
Do ponto de vista estrutural, a fachada está em boas condições gerais, mas existem pontos com presença de mofo, fungos e desgastes naturais do tempo. O maior desafio técnico está relacionado às diversas intervenções feitas no imóvel ao longo de décadas. O palacete recebeu pinturas sobrepostas e materiais que hoje já não são considerados adequados para imóveis históricos. Existem pinturas originais escondidas sob várias camadas de tinta e o trabalho exigirá pesquisas técnicas para identificar exatamente as cores, formatos e detalhes executados originalmente entre as décadas de 1920 e 1930.

JC – Existe algum levantamento histórico e arquitetônico sendo utilizado como base para a intervenção?
Ricardo César Massaro – Existem alguns levantamentos históricos e trabalhos acadêmicos relacionados ao palacete, além de documentos e plantas antigas que fazem parte do arquivo municipal. Porém, para o nível de precisão que precisamos hoje, será necessário realizar um novo levantamento completo. Todas as fachadas, plantas e medidas do imóvel estão sendo refeitas com tecnologia atual, para que os projetos sejam executados com máxima fidelidade.
Na prática, os trabalhos serão feitos praticamente do zero. Mesmo existindo projetos antigos, o imóvel sofreu modificações ao longo do tempo e, por isso, todas as plantas estão sendo atualizadas de acordo com a realidade atual do palacete.

JC – O projeto prevê a preservação integral das características originais do prédio? Quais elementos serão mantidos?
Ricardo César Massaro – Todos os elementos serão preservados. O projeto prevê a restauração integral do palacete, sem alteração de formas, tamanhos, cores ou características arquitetônicas. A intenção é restaurar o imóvel exatamente como ele foi concebido originalmente. Não pretendemos fazer interferências que descaracterizem o prédio. Todo o trabalho seguirá as normas do CONDEFAT e respeitará integralmente as características históricas e arquitetônicas do imóvel.

JC – Haverá adaptações para o uso contemporâneo do imóvel? Como conciliar preservação histórica com funcionalidade atual?
Ricardo César Massaro – Sim, haverá adequações necessárias para atender às legislações atuais, principalmente nas áreas de acessibilidade, elétrica e segurança contra incêndio. Tudo isso será feito de maneira muito criteriosa, sem interferir nas características históricas do palacete.
A acessibilidade será tratada ponto a ponto, de forma individualizada. Algumas soluções deverão seguir modelos semelhantes aos adotados em outros imóveis históricos da região, com adaptações discretas e compatíveis com o patrimônio. O principal desafio será garantir o acesso ao pavimento superior para cadeirantes, mas todas as normas serão cumpridas sem descaracterizar o imóvel.

JC – Qual será a destinação do imóvel após a conclusão das obras?
Ricardo César Massaro – O palacete foi concebido originalmente para funcionar como uma residência episcopal e nós queremos respeitar essa essência histórica. Ainda não existe uma definição totalmente fechada sobre o uso futuro do imóvel, mas a ideia é adequar os espaços às características já existentes no prédio.
Por conta da quantidade de cômodos e dormitórios, existe a possibilidade de utilização da parte superior como hospedaria, pousada ou hotelaria. Já o pavimento térreo deverá ser voltado para atividades culturais e de acesso público. A capela, por exemplo, deverá permanecer aberta para visitação pelo maior período possível, inclusive com a intenção de ampliar o acesso da população ao espaço.

JC – A comunidade terá acesso ao espaço após a restauração ou haverá áreas restritas?
Ricardo César Massaro – A proposta é que o palacete seja amplamente aberto à comunidade. Não haverá restrições permanentes de acesso, exceto em situações específicas relacionadas ao uso futuro do pavimento superior, que ainda está sendo estudado.
O imóvel deverá cumprir uma função social importante, principalmente ligada à educação, capacitação profissional e turismo. A ideia é desenvolver atividades nas áreas de culinária, hospedagem, hotelaria e turismo, fortalecendo a utilização pública do espaço histórico.

JC – Como a empresa avalia a importância deste tipo de intervenção para a valorização do centro histórico e do turismo local?
Ricardo César Massaro – O palacete faz parte do turismo histórico e religioso de Batatais e continuará inserido nesse contexto. O imóvel está integrado a um conjunto arquitetônico importante, ao lado da igreja e dos jardins, formando um patrimônio de grande relevância cultural para a cidade.
A intenção é fortalecer o turismo religioso já existente em Batatais, especialmente ligado às obras de Portinari e ao conjunto histórico da região central. O projeto busca agregar valor ao centro histórico e ampliar o potencial turístico do município.

JC – Este projeto pode abrir caminho para novas iniciativas privadas voltadas à preservação do patrimônio histórico?
Ricardo César Massaro – Sem dúvida. A iniciativa privada sempre teve participação importante na preservação de patrimônios históricos, especialmente em construções ligadas à religião e à cultura. Basta observar a própria história do conjunto do Santuário e do palacete, que contou com apoio de famílias tradicionais e doações ao longo do tempo.
Acreditamos que esse tipo de parceria pode contribuir muito para a conservação dos bens históricos e para garantir que esses espaços continuem existindo e sendo utilizados pela população.

JC – Quem está à frente do projeto e como será formada a equipe técnica responsável pela restauração?
Ricardo César Massaro – A FFM é uma empresa familiar, coordenada atualmente pelo Guilherme, que representa uma nova geração com visão voltada também para a preservação de imóveis históricos. A empresa atua nas áreas industrial e agrícola, mas vem se especializando cada vez mais sobre restauração de patrimônios tombados.
Hoje existe um conselho familiar acompanhando o projeto e também profissionais especializados envolvidos nesse trabalho. A arquiteta Ana Beatriz, que faz parte da família, participa ativamente da elaboração dos projetos. Além disso, teremos uma equipe multidisciplinar formada por arquitetos, engenheiros, historiadores, arqueólogos e outros especialistas ligados à preservação patrimonial.
Um dos principais focos desse trabalho será justamente a investigação das pinturas parietais existentes no interior do imóvel, buscando identificar e preservar os elementos originais da construção.

JC – Como a empresa define sua atuação dentro desse segmento de restauração de imóveis históricos?
Ricardo César Massaro – A empresa foi fundada em 2016, é uma empresa familiar, pequena, mas que possui uma grande vontade de recolocar imóveis históricos em atividade novamente. Isso faz parte da nossa ideologia e dos objetivos da empresa. Queremos trabalhar com restauração, preservação e reutilização de patrimônios históricos.

JC – Em que fase o projeto se encontra atualmente?
Ricardo César Massaro – Neste momento ainda não podemos falar propriamente em obra, porque qualquer intervenção depende de aprovação dos órgãos responsáveis pela preservação patrimonial, tanto estaduais quanto municipais. Todo o processo precisará passar pelos conselhos competentes, incluindo o COMPAC de Batatais, além das aprovações técnicas e jurídicas necessárias.
Ainda existem procedimentos judiciais e administrativos que precisam ser concluídos antes de qualquer intervenção ou mesmo pequenos serviços dentro do imóvel. Neste momento, estamos concentrados na fase de levantamentos técnicos, estudos e elaboração dos projetos de restauração.