/E o golpe gorou

E o golpe gorou

Não foi por falta de aviso e conhecimento prévio. A parcela dos Bolsonaristas radicais vinha, desde antes do segundo turno da eleição presidencial, elaborando os mais criativos – e improváveis – argumentos para justificar o que se viu no domingo dia 08 de janeiro, na praça dos três poderes em Brasília: a tentativa circense de um golpe de estado.
Os atos de terrorismo cometidos comprovaram de uma vez por todas que, no fundo, o núcleo mais fervoroso do bolsonarismo não tem estratégia, mas se trata simplesmente de uma força bruta, acéfala e até despolitizada em certo sentido – neste último caso, exatamente por viver numa bolha de fake news e não ter noção da realidade e das consequências políticas dos seus próprios atos, como ocorreu no domingo.
Aqueles extremistas certamente aguardavam, com esse movimento transloucado, a adesão dos militares para o suporte necessário de uma “tomada do poder”. Mas o que se viu foram estes mesmos militares organizando na segunda-feira, a fila dos golpistas para se encaminharem, de ônibus, até a academia da PF para serem fixados, prestarem depoimento e depois, uma grande parte, caminhar presos em flagrante por vários crimes. Até o momento que escrevia esse artigo, mais de 900 foram detidos, e outros tantos eram procurados.
Aqueles que se autoproclamavam patriotas, cristãos, e defensores da família e da liberdade, não pensaram duas vezes em urinar em carpetes e obras de arte, defecar em cima de mesas, jogar um crucifixo histórico – com Jesus! – no chão, depredar computadores, quebrar grandes vitrais, agredir policiais e repórteres, tudo devidamente registrado em farta quantidade de registros fotográficos e vídeos. E que ironia, bolsonaristas que bravejavam que não admitiriam serem governados por “um ladrão”, roubaram armas e munição na sala do GSI, além de objetos de arte, presentes recebidos de nações amigas, celulares… e até uma bola de futebol autografada pelo Neymar! “Faça o que eu digo, não o que eu faço”. Hipocrisia nível olímpico…
Mas o que também me causou indignação, foi a postura de alguns bolsonaristas, ou “direitistas”, tentando justificar a depredação em Brasília, alguns até defendendo os extremistas. A narrativa de que os responsáveis seriam “infiltrados” foi ensaiada ainda no domingo pelas redes sociais, mas a tese não parou em pé, uma vez que se tratavam de mais de 7 mil golpistas, que premeditadamente organizaram a invasão, como restou demonstrado em várias postagens nas redes sociais, e pela investigação da PF. Nada justifica o que ocorreu, seja quem for o governo de plantão, e quem pagará o prejuízo será o contribuinte.
Prejuízo não só material, mas também na imagem do país no exterior. Com unanimidade, houve a condenação sumária por parte da comunidade internacional aos atos golpistas do domingo. De Joe Biden a Vladimir Putin, passando por toda a União Européia (até Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana oriunda da extrema-direita) todos os líderes da América Latina, países asiáticos (China inclusive), ONU, OEA, entre outros tantos.
Bolsonaro, que está nos Estados Unidos desde o dia 30 de dezembro, se manifestou timidamente pelas redes sociais no domingo à noite, e limitou-se a dizer que “Manifestações pacíficas, na forma da lei, fazem parte da democracia. Contudo, depredações e invasões de prédios públicos como ocorridos no dia de hoje, (…) fogem à regra”.
De imediato, políticos dos mais variados espectros ideológicos concordam que a tentativa fracassada de golpe produz efeito a curto prazo no sentido de unir os três poderes da república, tende a fortalecer politicamente Lula e Alexandre de Moraes, e desmobilizar a base bolsonarista mais radical, afastando-a da direita moderada. O primeiro sinal claro disso foi a presença do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas na reunião de governadores com o presidente Lula, ministros do STF e representantes do Legislativo federal na segunda-feira (dia 09/01), no Palácio do Planalto, quando ele elogiou as ações do governo federal, e repudiou aos atos golpistas do domingo.
Resta agora punir exemplarmente, com o máximo rigor, todos os criminosos. Não somente aqueles que estavam no local do crime, mas também, e principalmente penso eu, aqueles que financiaram os atos golpistas fazendo um “pix”, e ficaram em casa, cerveja na mão e carne na churrasqueira, confortavelmente acompanhando pela TV o espetáculo golpista que manchou, mas ao final acabou por fortalecer a nossa democracia.