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Devoradores de Estrelas é o filme de ficção científica que a gente merecia ter

Tem uma cena no início de Devoradores de Estrelas em que Ryland Grace acorda. Ele não sabe onde está. Não sabe como chegou lá. Não sabe nem quem é.
E o cinema inteiro prende a respiração junto com ele.
Essa é a marca de uma ficção científica que funciona de verdade: não é o espaço que assusta, é o reconhecimento. Porque todos já acordamos desorientados uma manhã, sem saber direito quem éramos — e o filme transforma essa sensação banal em ponto de partida para salvar o Sol.
Baseado no best-seller de Andy Weir, o mesmo autor de Perdido em Marte, o filme acompanha Grace, um professor de biologia que descobre estar sozinho a anos-luz da Terra, último sobrevivante de uma missão suicida contra os astrofagos — microrganismos fictícios que consomem energia estelar e estão, literalmente, apagando o nosso Sol. O título em inglês, Project Hail Mary, vem de uma expressão do futebol americano: o lance desesperado no último segundo do jogo. A tradução brasileira preferiu o impacto cósmico. Ambas funcionam. O filme também.
Ryan Gosling carrega uma performance que oscila entre o terror existencial e o humor de quem não tem mais nada a perder — e, curiosamente, é o humor que salva. Weir sempre soube que a ciência real não é fria: é a história de seres humanos recusando a desistir com ferramentas em punho. Devoradores de Estrelas entende isso. Resolve problemas com biologia, física e química. O herói não explode nada. Ele pensa.
E então aparece Rocky.
Sem entrar em spoilers: existe um personagem neste filme que vai entrar para a história do cinema de ficção científica ao lado de E.T., de HAL 9000, de Groot. A relação entre Grace e Rocky não é só o coração emocional do filme — é a tese filosófica dele. A ideia de que inteligência genuína não precisa de forma humana para criar vínculo humano. Que comunicação é uma vontade, não um idioma.
É o tipo de amizade que faz a gente sair do cinema em silêncio.
Phil Lord e Christopher Miller, diretores que já provaram em Homem-Aranha no Aranhaverso que blockbuster e profundidade não são opostos, construíram aqui algo raro: um filme de US$ 200 milhões que não infantiliza o público. A ciência é rigorosa sem ser pedante. O humor é inteligente sem ser condescendente. E o coração — esse coração narrativo que tantas produções de grande orçamento fingem ter — aqui bate de verdade.
Num cinema saturado de distopias, catástrofes e heróis musculosos salvando o mundo na bala, Devoradores de Estrelasaposta em outra coisa: a ideia de que a melhor tecnologia que a humanidade já produziu não é nenhuma arma, nenhum foguete, nenhuma IA. É a disposição de entender o desconhecido em vez de destruí-lo.
É um filme sobre solidão. Sobre propósito. Sobre o que acontece quando dois seres completamente diferentes decidem confiar um no outro no meio do nada.
Talvez seja este o gesto mais corajoso de Devoradores de Estrelas: insistir, em 2026, que ainda existe esperança.
E fazer a gente acreditar nisso por duas horas e meia.