O Jornal da Cidade de Batatais conversou com o novo provedor da Santa Casa de Misericórdia e Asilo dos Pobres de Batatais – Hospital Major Antônio Cândido, João Luiz Conceição (foto acima), que assumiu a função no início de fevereiro. Na entrevista, ele aborda sua trajetória, os desafios financeiros e estruturais da instituição, os planos para a gestão e as perspectivas para o atendimento à população. A seguir, a entrevista na íntegra:
JC: O que motivou o senhor a assumir a provedoria da Santa Casa neste momento e como encontrou a situação geral do hospital ao assumir o cargo? Quais foram as primeiras medidas adotadas desde o início da sua gestão?
Provedor João Luiz: Antes, gostaria de me apresentar! Me chamo João Luiz Conceição, sou casado e pai. Minha trajetória profissional foi no Corpo de Bombeiros de Ribeirão Preto na área de resgate e salvamento, bem como, no Gabinete de Instrução ministrando treinamentos e cursos, daí o meu apelido “João Bombeiro” como muitos me conhecem. Aqui em Batatais sempre estive envolvido em questões sociais, como voluntário sem remuneração, inclusive integro há anos a equipe organizadora da “Festa di San Gennaro”, entre outras, talvez por essa participação social fui convidado pelos membros da Mesa Administrativa a acompanhar e a participar do dia a dia operacional da Santa Casa.
Essa vivência, quase que diária, dentro do complexo hospitalar da Santa Casa, proporcionou uma noção das nuances envolvidas no funcionamento do hospital como um todo e isso fez com que eu aceitasse o convite e a indicação da Mesa Administrativa para ser o novo provedor, pois entendo que a Santa Casa como entidade de utilidade pública sem fins lucrativos, precisa se manter equilibrada financeiramente para continuar e até melhorar, ainda mais, a qualidade e segurança de seus serviços prestados, tanto aos usuários do SUS, como aos demais usuários que necessitam ou que busquem pelos serviços existentes e disponibilizados pela Santa Casa e para isso se faz necessário responsabilidade e planejamento.
Recebemos a instituição da gestão da Sra. Maria Helena Nori Bombonato em 01/02/2026 com avanços importantes, mas também com desafios estruturais e financeiros significativos, os quais vinham sendo enfrentados e que serão intensificados na minha gestão com muito planejamento e profissionalismo técnico. Dentre os desafios recebidos estão manter sempre atualizada a estrutura física e tecnológica, através de substituições, reformas e até adequações.
Outro desafio a ser enfrentado será o endividamento bancário acumulado ao longo dos anos originário em sua grande parte dos déficits gerados pelos serviços prestados ao SUS, que publicamente não remunerava a integralidade do valor gasto em cada atendimento realizado, bem como, aqueles que se fizeram necessários na época e após a pandemia da COVID-19 para manter operante os serviços existentes e disponibilizados pela Santa Casa à população Batataense, ou seja, assumimos uma instituição que manteve a assistência mesmo em cenários adversos com endividamentos, mas que agora exige reorganização técnica e equilíbrio financeiro e que salvou e continua salvando muitas vidas.
Como já vinha participando da gestão da Santa Casa juntamente com a anterior provedora Sra. Maria Helena Nori Bombonato, mantive o andamento dos projetos já iniciados por ela, como por exemplo, a mudança do Centro Médico do plano de saúde “Santa Casa Saúde”, hoje no centro (Praça Cônego Joaquim Alves) com grande circulação e de difícil acesso aos usuários, para um local totalmente estruturado de acordo com as normas e as orientações da Vigilância Sanitária do Município.
Além disso, nossa prioridade inicial foi estruturar um diagnóstico claro e realista da situação, onde estamos realizando um levantamento situacional completo que englobará a parte financeira, assistencial e estrutural para com base nele estruturarmos um plano com ações a serem executadas a curto, médio e longo prazo. Também iremos revisar e reajustar os processos internos para que possamos manter o equilíbrio financeiro da entidade com qualidade e segurança assistencial. Estamos trabalhando o clima organizacional, pois entendemos que toda reestruturação para ser sustentável se faz necessário haver o alinhamento interno com diálogo transparente entre as equipes envolvidas na assistência.

JC: Em relação ao cenário financeiro, qual é a situação atual da Santa Casa? Nesse momento o hospital tem conseguido manter o equilíbrio entre receitas e despesas? Como estão os repasses do SUS e a relação com o município?
Provedor João Luiz: A Santa Casa sempre enfrentou desafios financeiros relevantes, isto porque, os repasses públicos nem sempre cobrem a integralidade das despesas que a Santa Casa assume a cada atendimento através do SUS e essas despesas não cobertas vão se acumulando e para não tornarem impagáveis e até causarem a interrupção dos serviços, fez-se no passado empréstimos e financiamentos, os quais ainda estamos pagando mensalmente.
Os valores do SUS Paulista repassados pelo Governo Estadual ajudaram, mas não sanaram totalmente os déficits suportados mensalmente. Estamos intensificando as ações necessárias para que gradualmente ocorra o equilíbrio entre receitas e despesas. Entre as ações estão o maior controle dos gastos, renegociações dos contratos e, principalmente, investir em ações que resultem na melhoria da eficiência operacional.
Os repasses vêm sendo realizados regularmente de acordo com o pactuado o que proporciona o melhor planejamento para não incidir em pagamentos de juros e multas, o que acontecia antigamente e que originaram o endividamento hoje existente.
A Santa Casa como peça complementar da rede municipal de saúde, sempre buscou manter um bom relacionamento. Da mesma forma será durante a minha gestão, porém, com mais trabalho conjunto e transparência.
JC: Sobre o atendimento à população, quais melhorias podem ser percebidas a curto prazo? Há previsão de redução de filas para cirurgias e exames? Existe a intenção de ampliar serviços ou especialidades?
Provedor João Luiz: Muitas ações já estão sendo estudadas para logo serem implantadas, o que impactará na qualidade dos atendimentos e as melhorias serão percebidas pela população que necessitar ou acessar os serviços disponibilizados pela Santa Casa.
No que tange a redução dessas filas, registro que durante a gestão da Sra. Maria Helena Nori Bombonato foram realizados alguns mutirões de cirurgias e exames em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, o que ajudou na redução das filas. Na nossa gestão os mutirões continuarão, porém, cumpre esclarecer que o controle da fila de cirurgias e exames são gerenciados pela Secretaria Municipal de Saúde.
Portanto, havendo recursos financeiros, interesse por parte da Secretaria e estando a Santa Casa apta, novos mutirões ocorrerão. Ou seja, a Santa Casa continuará participando dos mutirões organizados e custeados pela Secretaria Municipal de Saúde, pois entendemos ser imprescindível atuar e atender dentro do menor tempo possível essa demanda, isto porque, tratam-se de pessoas enfrentando momentos de total fragilidade.
Como mencionado anteriormente, estudos e reorganizações estão e serão realizados e, se as conclusões direcionarem e forem favoráveis à ampliação de serviços ou especialidades médicas, esses serão ofertados ao SUS para incorporação na rede municipal. Nosso compromisso é ampliar serviços com responsabilidade, sem assumir compromissos que comprometam a sustentabilidade da instituição.

JC: No que diz respeito à estrutura, há obras, reformas ou aquisição de novos equipamentos previstas? O hospital já conta com recursos garantidos, como emendas parlamentares ou convênios? Quais são hoje as principais necessidades estruturais da instituição?
Provedor João Luiz: Mesmo diante das limitações financeiras, avançamos em pontos estratégicos, tais como: UTI nova com capacidade para 10 leitos que está aguardando cadastramento e habilitação no SUS; reforma da UTI antiga com 8 leitos em andamento, com recursos provenientes da Emenda Parlamentar para reforma de indicação do Deputado Federal Marcos Pereira.
Esses investimentos fortalecem a capacidade assistencial e representam um salto importante na qualidade estrutural. No que tange à modernização do parque hospitalar, essa entendemos ser uma necessidade relevante, porém será tratada de forma planejada e conforme disponibilidade de recursos, claro sem prejuízos ou interferências à assistência.
Temos indicações em andamento aguardando aprovação de propostas e assinatura de convênios para aquisições de equipamentos e custeio.
JC: Quanto à equipe, há falta de profissionais em alguma área específica? Como está o relacionamento com o corpo clínico e colaboradores? Existe algum plano de valorização ou reestruturação da equipe?
Provedor João Luiz: Não há sustentabilidade sem equipe comprometida. Estamos fortalecendo o diálogo com o corpo clínico e a equipe multiprofissional, bem como realizando a reorganização das equipes para melhor assistência.
A valorização profissional se faz necessária, porém devemos respeitar as limitações financeiras da Santa Casa para não comprometer o equilíbrio financeiro. Nosso entendimento é que eficiência não significa apenas reduzir custos, mas também organizar melhor o trabalho e dar clareza de propósito à equipe.
JC: Em relação à gestão, quais serão os principais pilares da sua administração? Haverá mudanças na forma de condução em comparação com gestões anteriores? Como a população poderá acompanhar as ações e a transparência da Santa Casa?
Provedor João Luiz: A gestão está baseada em: transparência, responsabilidade fiscal, continuidade institucional, planejamento técnico e humanização no atendimento. A evolução administrativa se faz necessária diante de um novo contexto econômico e assistencial.
JC: Sobre a relação institucional, como será o diálogo com a Prefeitura e a Secretaria de Saúde? Há intenção de ampliar parcerias regionais ou buscar novos investimentos junto a deputados e outras esferas?
Provedor João Luiz: A parceria com a Prefeitura e a Secretaria de Saúde é fundamental. Temos encontrado apoio nas decisões estruturais e na busca por soluções conjuntas. Também buscamos ampliar o diálogo com parlamentares e outras esferas governamentais, visando novos investimentos e maior previsibilidade financeira.
JC: Por fim, qual o maior desafio da Santa Casa atualmente, onde o senhor pretende chegar ao final do seu mandato e que mensagem gostaria de deixar à população de Batatais?
Provedor João Luiz: O maior desafio é claro: garantir sustentabilidade financeira sem comprometer a assistência. Ao final do mandato, nosso objetivo é entregar uma Santa Casa mais organizada administrativamente, com endividamento controlado, estruturalmente fortalecida, com maior previsibilidade financeira e com assistência qualificada e humanizada.
Encerro registrando que a Santa Casa, por ser uma instituição privada sem fins lucrativos de utilidade pública, necessita como todas as outras da mesma natureza da ajuda e colaboração da comunidade, dos empresários e empresas da cidade. Isto porque as despesas na área da saúde são altas e as receitas muitas vezes insuficientes.
Por isso, as entidades realizam eventos para angariar recursos financeiros e esse será o desafio nosso à frente da Santa Casa: buscar e ampliar, ainda mais, o apoio da comunidade batataense, sempre com transparência, responsabilidade e planejamento das ações que serão realizadas para fortalecimento dos serviços prestados pela Santa Casa, que pertence à comunidade e precisa do apoio de todos.





