
Olá leitoras e leitores!
Na edição anterior da coluna Giro Histórico e Cultural, Batatais e seus bosques, tratamos sobre os projetos de espaços verdes públicos para a zona urbana de Batatais veiculados na imprensa escrita no decorrer do século XX. Discorremos sobre o Capão (Parque das Nascentes ‘Ataliba Martins de Moura’), a Cachoeira (Parque Naútico Engenheiro ‘Carlos Zamboni” e o Bosque de Eucaliptos (Praça Nossa Senhora Aparecida).
Na presente edição, apresentamos o que levantamos sobre o Bosque Municipal com seus mais de 70 anos de existência e que foi, mais uma vez recentemente reestruturado para melhor atender seus frequentadores. Nas festividades de entrega do local revitalizado, foram rendidas homenagens ao seu idealizador, o médico e político, Dr. Alberto Gaspar Gomes.
LS e AB

O Bosque Municipal Dr. Alberto Gaspar Gomes está localizado na região centro-sul de Batatais, na saída para as cidades de Altinópolis e Brodowski.
São cerca de 90 mil m2 de extensão, aproximadamente nove campos de futebol, de uma área arborizada com diversificadas espécies, que atraem aves, insetos e outros pequenos animais. Possui ainda estrutura para seus frequentadores, como caminhos sinalizados, bebedouro, bancos, banheiros, lanchonete, etc. Assim, a população pode usufruir de momentos de lazer, recreação e esportes com qualidade e segurança.
A história do Bosque Municipal começou há 73 anos quando o então Bosque de Eucaliptos (tema tratado na edição anterior) deixa de existir e com ele o sonho de um espaço público organizado para ser, naquele local, ponto de lazer e recreação para a população batataense.
O prefeito municipal da época, o então médico, Dr. Alberto Gaspar Gomes, sabendo da importância que espaços verdes planejados são para a saúde e lazer da população, tratou de encontrar um local para transformar em logradouro público em substituição ao Bosque de Eucaliptos, totalmente pavimentado e transformado em praça pública, a Praça Nossa Senhora Aparecida, no ano de 1953.
Nesta mesma época, Dr. Alberto Gaspar Gomes, em sua primeira legislatura como prefeito do município entre os anos 1952 e 1955, projetou o atual Bosque Municipal.
A região escolhida para se tornar o futuro Bosque Municipal foi a do alto do Bairro Santo Antônio, que até a década de 50 era pouco ocupada. À época da sua criação, em 1953, existiam em seu entorno alguns logradouros, como o Cemitério Municipal (1903), a Capela de Santo Antônio (1910), o 1º Grupo Escolar Rural (1935), a Vila Vicentina (1947), o Instituto Feminino/Lar da Infância (1948).
A Lei nº. 181, de 25 de maio de 1953, trata da abertura de um crédito para as despesas iniciais com o futuro Bosque Municipal desta cidade.

Consta que foi o próprio Dr. Alberto Gaspar Gomes quem selecionou quais as árvores a serem mantidas ou plantadas no local, que teria sido desenhado originalmente pelo agrônomo e vereador à época, Carlos Junqueira Nogueira:
“(…) os traçados delineados pelo vereador Carlos Junqueira Nogueira, margeadas pelas árvores ornamentadas mandadas plantar pelo então chefe Executivo de Batatais…” (O JORNAL, 10/1/1960)
Vale ressaltar que com o decorrer do tempo, a região do entorno do Bosque Municipal tornou-se mais povoada, e passou a contar com maior número de logradouros e construções privadas, como a Creche Menino Jesus (1961), Tiro de Guerra 02-047 (1964), Ginásio Industrial (1967), Necrotério Municipal, Escola Estadual Geraldo Tristão de Lima (1988) e pelo menos quatro conjuntos habitacionais.
De sua origem até os nossos dias, o Bosque Municipal passou por diversas fases, alternando: ora abandono e descaso, ora revitalização.
“VIROU PASTO O HORTO MUNICIPAL – por incrível e inacreditável que pareça, o horto municipal se transformou em pasto, tal o abandono a que foi relegado. Constantemente vários cavalos são vistos ‘devorando’ o matagal que a atual administração deixou formar num patrimônio onde o dinheiro do povo foi aplicado, e que agora é largado como se nada houvesse! Custaria muito ao poder público ter um interesse e maior zelo e na conservação daquele Parque? O fato do mesmo se ter convertido em pasto, vem atestar, em definitivo, as pretensões da administração com referência aquele local! Confirma-se outra prova do dinamismo do governo executivo municipal.” (FOLHA DE BATATAES, 1954)
O texto abaixo, redigido na década de 50, propõe ao leitor um passeio contemplativo pelo Bairro Santo Antônio, o que nos permite conhecer um pouco da realidade da época. Façamos o mesmo:
“VER PARA CRER! – Deixe de ser caseiro, meu amigo. Aproveite uma de nossas bonitas tardes e dê uma volta pela cidade e verá coisas interessantes.
Inicie o seu passeio pela Rua Capitão Andrade até a Vila Vicentina, onde poderá admirar a bela Capela em vias de conclusão, daí caminhe até o Instituto – ex-Feminino e terá ocasião, em sua passagem, de observar os trabalhos levados a efeito para a formação do Bosque Municipal.
De volta do Instituto o caminho a sua esquerda, verá não longe o ‘Alto do Papagaio’, – reinado do Zeca Lopes -, e onde nesse momento está ele construindo bom número de casas, no largo que vai ter o nome de São Benedito e onde deverá ser erguida a Igreja em louvor desse Santo.
Poderá daí apreciar os novos alinhamentos das ruas Santos Dumont e Cel. Joaquim Marques e descendo verá que as Casas Populares da ‘Praça Riachuelo’, já são uma realidade.
Prossiga depois pela Rua Rio Grande do Norte e terá de um lado a ‘Praça Nossa Senhora Aparecida’, que muito em breve será um dos mais aprazíveis logradouros da cidade e em sua frente, majestoso e imponente, o monumental ‘Estádio Dr. Oswaldo Scatena’, onde se abrigam as tradições imperecíveis da glorioso Fantasma da Mogiana, cujos diretores cuidam de arregimentar para as lides do próximo ano, um poderoso “Esquadrão da Vingança”.
Percorra na primeira tarde, esse pequeno trecho apenas e constatará, satisfeito, que Batatais cresce e progride.
Detenha sua atenção para o Alto do Papagaio nas proximidades da Caixa D’Água e verifique o quanto seria agradável residir por ali. Volte, então, entusiasmo e dirija-se sem perder tempo a Prefeitura em busca de aforamento de um terreno e construa naquele Alto sua própria residência. “Ver para crer” é o título que demos a esta crônica.
O que os olhos não veem, o coração não deseja. Quando os batataenses não se deram conta ainda das belezas que se descortinam do Alto do Papagaio, simplesmente em virtude de se não haverem dado ao trabalho de irem até lá…
Pois bem, não percais tempo que em verdade o melhor é “Ver para Crer!
Ass. Heitor de Macedo Arantes” (FOLHA DE BATATAIS, 28/6/1953)
Logo que reassumiu o cargo de Prefeito, em sua segunda legislatura (1960-1963), Dr. Alberto Gaspar Gomes reafirmou o compromisso assumido de “recuperar as obras abandonadas pela gestão anterior”, entre elas, a do Bosque Municipal que segundo reportagem se encontrava em estado de abandono.
“O NOVO PREFEITO PROCURA RESOLVER ALGUNS DOS MAIS IMPORTANTES PROBLEMAS DA CIDADE! – (…) o Dr. Alberto Gaspar Gomes, sinalizou as primeiras medidas a serem tomadas. Dentre elas: “RECUPERAÇÃO DE OBRAS ABANDONADAS – bem se sabe que o Horto Municipal, mandado construir pelo próprio dr. Alberto Gaspar Gomes, lá nos altos do bairro Santo Antônio, na sua passada administração (1952-1955) foi abandonado pelo seu sucessor, Mário Martins de Barros. Hoje, o mato graceja impiedosamente naquele local, (…)” (O JORNAL, 10/1/1960)
“Os moradores do bairro fronteiro ao bosque da Rua Dr. Raimundo (fundos do Campo de Futebol) continuam reclamando a abertura de uma viela entre o campo do Batatais F. e C. e o Cemitério da Rua Gustavo Simioni para dar-lhes acesso imediato ao centro da cidade. Aliás, o sr. Prefeito José Olímpio Freiria, já havia prometido, conforme tivemos ocasião de divulgar.” (FOLHA DE BATATAIS, 30/4/1967)
Para dar seguimento a recuperação do Bosque Municipal, foi nomeado um membro do Legislativo para acompanhar as obras necessárias.
“O vereador Juca Pindoba foi convidado pelo dr. Alberto Gaspar para orientar e dirigir o movimento de recuperação do Horto Municipal, existente lá nos altos do bairro de Santo Antônio, defronte à Vila Vicentina. Apuramos que o referido edil aceitou a incumbência e que bem logo estará em ação”. (O JORNAL, 17/01/1960)
“ANIMADORAS AS PERSPECTIVAS DE REALIZAÇÕES DO GOVERNO MUNICIPAL EM 1961 – (…) depois da posse, o sr. Dr. Alberto Gaspar Gomes, que estudaria um plano evolucionario para a urbe, em tal assunto, levando a periferia da cidade, o calçamento existente na parte central (quase todo a paralelepipedos) que se substituiria por outro material atualizado (bloquetes, etc).” (O JORNAL, 25/12/1960)
“(…) também o Bosque Municipal seria concluído pelo sr. Chefe do Executivo que, alias, fora o iniciador daquela realização abandonada pelo último prefeito, lá nos altos dos bairro de Santo Antonio, defronte a Vila Vicentina.” (O JORNAL, 25/12/1960)
Ao final da gestão do Dr. Alberto, o bosque estava recuperado, sendo noticiado que a área que “se estende da Vila Vicentina até o Cemitério Municipal, constitui, sem dúvida, um local apropriado para os passeios dominicais. Arborizado, com avenidas largas (…), é um recanto aprazível da cidade.” (FOLHA DE BATATAIS, 17/2/1963)
Todavia, a permanência do Bosque Municipal como um ponto de lazer passou por constantes descasos e abandonos nos anos sequentes, conforme podemos ler nas matérias publicadas entre 1968 e 1978:
“PULMÕES VERDES – Essas realidades no moderno campo da ciência nos leva a solicitar da prefeitura batataense, na pessoa do sr. José Olímpio Freiria que salve, com urgência, o bosque municipal, situado defronte a creche e colocado em excelente posição. Inteligentemente delineado, implantado sob curva de nível, o bosque batataense, que deveria ser uma prova da visão de futuro, pois que vai de encontro com o que pregam os tratadistas agronômicos, vem sendo, pra mais de três anos, tragado pelas formigas e recebendo o ataque de machadeiros criminosos, que decepam espécimes tecnicamente plantados. Acreditamos nas providencias dos poderes municipais e ate na cooperação do sr. Delegado de polícia, quanto aos delinquentes que assaltam esse bosque sabiamente traçado para as gerações batataenses do futuro” (O JORNAL, 01/09/1968)
“BOSQUE MUNICIPAL – Parece-nos que a reivindicação do MDB de nossa terra, em relação ao Bosque Municipal teve acolhida por parte do sr. Chefe do executivo, pois as cercas do referido bosque estão sendo reparadas e o mata-burro em breve será recolocado. Assim, ao que tudo indica a obra do saudoso Dr. Alberto poderá ser ampliada e melhorada. Aguardemos!” (O JORNAL, 28/07/73)
“SOBRE O BOSQUE MUNICIPAL – demonstrado um grande interesse no que tange a recuperação e remodelação do nosso Bosque Municipal. Obra idealizada e concretizada pelo saudoso humanista Dr. Alberto Gaspar Gomes, sempre se constitui num verdadeiro recanto de lazer para a população batataense (…). O Bosque se encontra a espera de uma remodelação. Seria interessante que um parque fosse construído no local, pois, assim, um número maior de pessoas pudesse usufruir de recanto tão aprazível.” (O JORNAL, 14/08/76)
“(…) Bosque municipal poderá ser o mais agradável ponto de encontro dos batataenses. Com as melhorias que estão sendo aplicadas no bosque Municipal, o mesmo poderá se transformar num otimo ponto de encontro, inclusive comportar um restaurante dançante e até mesmo uma discoteca para os jovens a exemplo do Bosque de Ribeirão Preto. São apenas deduções que sem duvida se tornarão realidade.” (O JORNAL, 12/05/78).
Em 1978, a imprensa escrita propõe que seja dado ao Bosque Municipal, o nome do Dr. Alberto Gaspar Gomes, prefeito em Batatais em dois mandatos (1952-1955; 1960-1963).
“A RESPEITO DO BOSQUE MUNICIPAL – (…) remodelado o bosque municipal, a bem da própria justiça, eis que concluímos, deveria ser denominado recinto municipal DR. ALBERTO GASPAR GOMES. Mais do que o homenageado, o mesmo mais que o próprio administrador Dr. Antônio Claret Dal Piccolo, a conquista histórica dos batataenses em muito ilustrará o futuro: a cidade onde um povo respeitava e amava a Natureza. (…) A notamos que, algumas vezes, a ambição desenfreada, ou mesmo, a audiência total de bom senso tem se revelado como sendo responsável por um dos maiores crimes perpetrados contra a Natureza: a destruição de toda e qualquer área verde. (…) Sempre mais precisamente, uma década.” (O JORNAL 20/05/78).

Até onde conseguimos pesquisar, não existe uma lei municipal de denominação do Bosque Municipal ao seu patrono Dr. Alberto Gaspar Gomes, o que nos leva a presumir que o nome passou a ser usado informalmente até ser apropriado pela gestão pública na década de 1980, quando novamente passa por uma remodelação com a instalação de pista de cooper com 2km de caminhada, placas indicativas de exercícios físicos a cada 100 metros com 20 estações com equipamentos para as práticas, além das estruturas de sanitários, lanchonete, bebedouro, quadra de bochas, quadra de malha e quiosques.

Em 2000, 70 eucaliptos do Bosque foram derrubados para a construção do Centro de Convivência do Idoso, sendo substituídos por árvores nativas integradas à área verde.
Por falar nas árvores, em levantamento realizado no final da década de 1990, o Bosque Municipal era formado pela seguinte arborização: bambu gigante, angico branco, jatobá, angico preto, eucalipto saligna, eucalipto citriodora, ipê roxo (de bola), goiabeira, mangueira, cipestre, jacarandá paulista, jacarandá mimoso, mondoleiro, canafístula, pau terra, sucupira, jambeiro, cafezinho do campo, macaúba, ingá comum, bálsamo, pororoca, pitanga, quaresmeira, jacarezinho, sibipiruna, barbatimão e seringueira verdadeira.
Mais uma vez, o Bosque Municipal Dr. Alberto Gaspar Gomes passa por um projeto de revitalização em 2025, sendo reconhecidamente uma importante área verde da cidade, um espaço de lazer e práticas esportivas, ponto de conexão entre bairros e serviços da cidade.





