
Em Crime e Castigo (1866) Dostoiévski antecipa um dilema: a tentação de acreditar que certos homens em nome de uma missão histórica , estariam autorizados a ultrapassar a lei, a moral e até o sangue.
Mais de um século depois essa ideia retoma com força inquietante no debate político global e encontra em Donald Trump uma de suas figuras mais ambíguas.
Em Crime e Castigo, Raskhólnikov matou a machadadas uma velha usurária e acreditou ser correto o seu ato, pois a velha não passava de um piolho que sugava os mais fracos. Para Raskhólnikov, existem dois tipos de indivíduos, os vulgares e os extraordinários. Os vulgares ou inferiores são conservadores por natureza, disciplinados, e obedientes; procriam a espécie. O segundo tipo são aqueles que possuem dom e inteligência, são infratores de leis, usam diversos métodos de destruição e autorizam suas consciências a saltarem por cima de cadáveres e sangue.
A primeira multiplica o mundo matematicamente, a segunda os move e conduz para sua finalidade, o critério não é moral. Se o resultado histórico possuir uma ideia triunfante, o sangue derramado está justificado.
Trump surge nesse cenário como um personagem que parece flertar com essa lógica sem jamais assumi-la plenamente, ele desafia as instituições, normaliza transgressões, age por impulso ego e espetáculo, não formula uma visão histórica coerente, depende do aplauso constante e ainda utiliza-se do expansionismo retórico (Venezuela, compra da Groenlândia, alianças internacionais são tratadas como transações pessoais) questiona eleições e tribunais… ele encena o homem que não reconhece limites e é movido por ressentimentos e pela lógica do espetáculo, seu poder nasce do ruído permanente da controvérsia.
Trump não encarna totalmente o “homem extraordinário”, mas ele acredita que a transgressão pode ser redentora como Raskholnikóv também achava. É essa ambiguidade que o torna perigoso, ele não oferece uma doutrina clara , ele abre espaço para que milhões aceitem a suspensão das regras em nome de um suposto bem maior: “América primeiro”.
E aí vem a pergunta de Dostoiévski: ” O que acontece quando o poder se emancipa da consciência?” Será que o mundo prefere continuar apostando na ilusão de que alguns homens podem tudo sem pagar um preço?
O perigo, contudo, não reside apenas no homem, o verdadeiro risco está na aceitação coletiva da lógica de exceção. Os homens passam, mas a sociedade pulsa as ideias. Parece que estamos caminhando à sombra de um vulcão.





