/Zucco, o Niilista

Zucco, o Niilista

Zucco é um cara niilista. Para ele, tudo é nada, e nada é isso tudo que está aí. Não convide Zucco para ir ao cinema; Zucco não vai, porque ele não acredita em nada daquilo. Os atores estão fingindo, o filme é fingimento, e todos que estão assistindo sabem que é tudo uma fantasia — e, mesmo sabendo, deixam-se levar nessa balada. Zucco não entende como todo mundo cai nessa marmelada de ir ao cinema ou ao teatro, sabendo que todos fingem.

Zucco está pelo caminho, sozinho, quando é abordado por alguém que pergunta se ele conhece a música X, que é a mania do momento. Zucco não concorda que as pessoas ouçam músicas e até se distraiam sem perceber que as músicas que estão aí foram todas escritas e elaboradas pela indústria musical, que só visa lucros, aprofundando as diferenças de classe e promovendo a alienação de quem ouve. Um zumbi é no que se transforma o consumidor, alegre na sua alienação. Não, não convide Zucco para ouvir música. Até um concerto Zucco recusa ir, porque ele acha pretensioso demais maestros e músicos tentarem dar sons à natureza e aos sentimentos. Não, Zucco acha isso pedante demais — soberba até.

Zucco não consegue entender como o futebol atrai tantas multidões pelo planeta. Ele acha a Copa do Mundo a grande ilusão planetária, onde todos estão em delírio por conta de homens e mulheres correndo atrás de uma bola, como se fossem dominados por ela — e se esforçando para continuarem sendo dominados — a ponto de o mundo todo desejar essa obsessão: correr atrás de um balão de couro. Não, futebol Zucco também não entende.

Outra vez, Zucco estava flanando por aí, e um sujeito lhe disse que fulano iria para o céu, pois foi tão bom aqui na Terra, e perguntou se Zucco concordava. Ora, perguntou para a pessoa errada. Zucco emendou: por que o céu? O que é o céu? Como é o céu? O céu — continuou Zucco — é uma grande ilusão, uma imaginação criada há muito tempo pelos mais fracos, pois os fortes eram mais adorados pela população, porque traziam e revelavam grandes feitos e protegiam seu povo frente ao invasor, o que lhes causava admiração. Por outro lado, a inveja observava e, na sua astúcia, move o fraco a inventar algo que não é deste mundo, e só os bons irão para lá. Pregam, falam de fé, e tudo está no além; até o inferno tem tantos demônios para tantos pecados… como há santos no céu. É um grande cenário produzido pela imaginação de cada um. Não, Zucco não acredita em nada disso, nem céu nem inferno; quem criou um, criou o outro, e para Zucco nada disso faz sentido. A pessoa que perguntou a Zucco se sentiu ofendida, deu-lhe as costas e foi embora.

Embora tenha ido também, Zucco observava as casas enquanto flanava por aí. Com elas, às vezes falava em pensamentos, gostando mais de uma que de outra, tendo preferências e se surpreendendo com algumas. Zucco ficava em pensamentos — só que cada um pensa do seu jeito — e Zucco é niilista, não tem muitos iguais a ele por aí. Foi ao anoitecer, e estava gelado naquele dia, quando um indivíduo perguntou a Zucco que haveria eleições para presidente naquele ano e se ele iria participar do pleito. Não, Zucco nada sabe de política, apenas que um grupo pretende se distanciar do outro para ter privilégios, apoiado pelo próprio outro que aceita ser dominado voluntariamente. Por isso, Zucco segue seu caminho sem se meter em política — e não vai votar.

Certa vez, em outro dia frio, Zucco contemplava, de uma ponte, o rio que abaixo passava. O movimento encantava Zucco, mas, ao mesmo tempo, o desencantava, pois, se tudo é Um, esse Um é todo imutável; então, todo movimento é uma ilusão. E assim, absorto em seus pensamentos, percebeu que, ao seu lado na ponte, parou uma moça, maior que ele, e o olhou profundamente nos olhos. Zucco abanou negativamente a cabeça; ela, alguns segundos depois, repetiu semelhante gesto. Seguiram pela ponte, e Zucco perguntou o nome da moça. Ela respondeu naturalmente: Zica. E assim caminharam pela ponte, Zica e Zucco, pensando e abanando negativamente suas cabeças, até desaparecerem no horizonte gelado — com seus corações ainda mais gelados.