O relógio avançou, os processos judiciais tiveram andamento, mas para as famílias dos nove bombeiros civis que perderam a vida no desmoronamento da Gruta Duas Bocas, em Altinópolis, a sensação é de que a tragédia ainda não terminou. Quase quatro anos após o acidente que chocou o país, nenhuma das indenizações fixadas pela Justiça foi efetivamente paga aos parentes das vítimas.
A decisão judicial, proferida em 2023, determinou que o proprietário da escola responsável pelo treinamento indenizasse os familiares em R$ 50 mil por vítima, totalizando R$ 450 mil. O valor, no entanto, permanece apenas no papel.
Para os parentes, o reconhecimento da responsabilidade foi importante, mas insuficiente diante da falta de cumprimento da sentença. Muitos seguem convivendo com dificuldades financeiras, além do sofrimento emocional provocado pela perda repentina de seus familiares.
O advogado que representa as famílias, David Lucas de Oliveira, afirma que a busca pelo recebimento das indenizações esbarra em uma série de obstáculos. Um deles é o desaparecimento de uma suposta apólice de seguro que teria sido contratada para cobrir acidentes durante o treinamento. Segundo ele, o responsável pela contratação do seguro seria o instrutor Celso Galina Júnior, que também morreu na tragédia. “Após a morte dele, essa apólice nunca foi localizada. A seguradora afirma que não existe registro do contrato, enquanto há relatos e áudios indicando que o seguro teria sido feito. Além disso, o Estado não reconhece responsabilidade no caso, e a empresa responsável pelo curso não possui condições financeiras para indenizar as famílias”, explicou em reportagem ao G1.
A empresa citada é a Real Life, escola de formação sediada em Ribeirão Preto que promovia o curso de busca e salvamento em cavernas. De acordo com a defesa de seu proprietário, Sebastião Francisco de Abreu Neto, as atividades foram encerradas após o acidente.
O advogado Wesley Felipe Martins dos Santos Rodrigues afirmou que seu cliente atravessa dificuldades financeiras desde então. “Ele precisou interromper suas atividades e buscar outros meios para sobreviver. Hoje não possui condições econômicas para arcar com esses pagamentos”, declarou.
Além das indenizações pendentes, uma taxa processual de aproximadamente R$ 3,5 mil, referente às custas judiciais, também deixou de ser quitada e deverá ser inscrita na dívida ativa do Estado.
Condenação sem prisão
No âmbito criminal, Sebastião foi condenado a quatro anos de detenção por homicídio culposo, modalidade em que não existe intenção de matar. A pena, porém, não resultou em prisão. A Justiça determinou a substituição da condenação por prestação de serviços à comunidade.
A tragédia que comoveu o Brasil
O acidente aconteceu na madrugada de 31 de outubro de 2021. Naquele fim de semana, 28 bombeiros civis e instrutores participavam de um treinamento especializado na Gruta Duas Bocas, localizada na zona rural de Altinópolis.
O cronograma previa atividades noturnas dentro da caverna. Contudo, fortes chuvas atingiram a região e o treinamento foi interrompido. Sem condições seguras para deixar o local, o grupo permaneceu abrigado na entrada da gruta.
Horas depois, parte do teto de arenito desabou sobre os participantes. Dez pessoas ficaram soterradas. Apenas uma conseguiu sobreviver.

As vítimas fatais foram:
• Celso Galina Júnior;
• Jenifer Caroline da Silva;
• José Cândido Messias da Silva;
• Elaine Cristina de Carvalho;
• Rodrigo Triffoni Calegari;
• Jonatas Ítalo Lopes;
• Débora Silva Ferreira;
• Ana Carla Costa Rodrigues de Barros;
• Natan de Souza Martins.
A operação de resgate mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, especialistas em salvamento e geólogos, acompanhada com apreensão por todo o país.
O que revelou a investigação
Os laudos técnicos descartaram que o desmoronamento tenha sido provocado por escavações ou intervenções humanas diretas. A perícia concluiu que a estrutura da gruta apresentava fragilidades naturais decorrentes do desgaste do arenito ao longo do tempo.
Os especialistas também identificaram sinais de infiltração e umidade, agravados pelas chuvas intensas registradas naquele período. O encharcamento contínuo da rocha teria comprometido sua resistência estrutural, favorecendo o colapso.
Justiça que não chega
Para os familiares, a ausência do pagamento das indenizações representa mais do que uma pendência financeira. É a sensação de que a responsabilidade reconhecida pela Justiça ainda não se traduziu em uma reparação concreta.
Enquanto os anos passam, a saudade permanece intacta e a luta continua. O que os parentes das vítimas esperam não é a substituição de vidas perdidas por dinheiro, mas o cumprimento de uma decisão judicial e o reconhecimento efetivo dos direitos daqueles que nunca voltaram para casa após aquele treinamento.





