A história centenária do Instituto Agrícola de Menores de Batatais — berço de formação de gerações de crianças e adolescentes desde meados do século XX — voltou ao centro das atenções após uma denúncia feita pela Associação Histórica dos Ex-Menores em Ação (AHEMA). O grupo, composto por antigos internos do Instituto Agrícola e da Infância Amigos Para Sempre (IAPS/Nova Geração), reuniu-se para tornar pública sua indignação quanto à suposta invasão do espaço onde a Associação estava instalada.
O imóvel em questão, cedido em caráter precário à Associação pela Prefeitura de Batatais, por meio do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), foi durante décadas conhecido como “Lar 3”, uma das unidades que abrigava jovens da antiga Febem e também funcionou como Casa Abrigo Municipal. Até 2024 e 2025, os ex-internos — muitos hoje idosos — conseguiram revitalizar parte da estrutura física, realizar encontros e preservar a memória da instituição.
Os membros da AHEMA ressaltam que o local é símbolo de uma trajetória marcada por desafios, superação e vínculos afetivos profundos. “Para nós, este sempre será o Lar 3, um pedacinho de nossos corações”, afirmam.

Denúncia de invasão e retirada de objetos
Segundo o grupo, há cerca de 15 dias eles foram informados por um veterano residente em São Paulo de que o prédio teria sido invadido por pessoas não identificadas. De acordo com o relato, cadeados teriam sido arrombados e placas com os nomes IAPS e IAMB foram arrancadas. Pertences da Associação teriam sido retirados dos cômodos e colocados à parte.
Entre os itens citados pela AHEMA estão: 2 geladeiras, fogão, camas e colchões, móveis diversos, utensílios de cozinha, roçadeira, ferramentas e materiais de manutenção, bebedouro, caixa d’água, roupas de cama e equipamentos usados nos encontros dos ex-menores.
Em documento assinado, os ex-internos afirmam ainda que moradores que atualmente ocupam o prédio não seriam ligados à Associação. Um deles teria sido acolhido inicialmente de forma temporária, mas passou a ocupar os cômodos de maneira permanente.
Memória viva e reencontros emocionados
As fotos enviadas pelos ex-internos mostram reencontros recentes, com homens e mulheres — hoje pais, avôs e bisavôs — reunidos em frente ao antigo prédio onde cresceram. Nas imagens, aparecem abraçados, usando camisas do tradicional IAMB F.C., equipe esportiva formada entre os jovens da instituição e ainda ativa entre os veteranos.
Momentos de emoção são visíveis nos registros: ex-menores conversando no jardim, visitando placas históricas, mostrando orgulhosamente o uniforme do time, e até um ex-interno cadeirante retornando ao local acompanhado de amigos. Em uma das fotos, uma senhora idosa sorridente — aparentando ser figura importante para eles — posa ao lado de dois veteranos, reforçando o caráter afetivo do reencontro.
“É um sentimento que não se explica. Este lugar moldou nossas vidas. Temos amor verdadeiro por cada parede, por cada árvore desse espaço”, dizem.

Associação pede apoio e intervenção de autoridades
A AHEMA afirma que, durante anos, organizou encontros mensais, preservou objetos históricos e manteve viva a memória da instituição — mesmo com dificuldades financeiras e com a suspensão das atividades durante a pandemia.
Agora, com o risco de perder o espaço, o grupo faz um apelo para que o poder público analise a situação, ajude a restabelecer o uso adequado do imóvel e garanta respeito à história dos ex-menores.
“Pedimos aos órgãos competentes que observem nossa causa. Para nós, isto significa um bem maior. Aqui viveram milhares de crianças. Hoje somos homens, chefes de família, e este local representa nosso verdadeiro lar”, concluem.
O grupo afirma que continuará lutando para preservar o patrimônio emocional e cultural que o Instituto representa, e pede que a população apoie e compartilhe o caso.





