/Del Toro, o mestre dos monstros que nos entendem

Del Toro, o mestre dos monstros que nos entendem

Confesso: sou fã declarado de Guillermo del Toro. Não apenas dos filmes, mas também dos livros, das entrevistas e até das anotações de bastidores que ele publica vez ou outra. Há algo mágico e profundamente humano no jeito como ele transforma criaturas, fábulas e horrores em espelhos da nossa própria alma. Quando assisti ao novo Frankenstein, tive aquela sensação rara de estar diante de algo que não é apenas cinema — é arte pulsando em cada sombra, em cada olhar.

O encantador de monstros
Del Toro é um contador de histórias como poucos. Seus filmes não são apenas sobre monstros, mas sobre a humanidade que vive dentro deles. Ele mistura medo, fantasia e ternura como quem cozinha um prato de infância — com emoção e um toque sombrio irresistível. Desde o começo da carreira, no mexicano Cronos (1993), já dava pra ver que vinha ali um artista com assinatura própria: uma mistura de poesia visual e coração.
Mas foi em O Labirinto do Fauno (2006) que ele realmente ganhou o mundo. Aquela fábula sombria ambientada na Espanha franquista mostrou que a imaginação pode ser um refúgio diante da brutalidade real. O filme é um soco e um abraço ao mesmo tempo — e até hoje, cada vez que o revejo, descubro novos significados escondidos entre os galhos secos e as asas das fadas.
Depois veio A Forma da Água (2017), um verdadeiro conto de amor entre uma mulher muda e uma criatura aquática que parecia saída de outro mundo. O resultado? Quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme e Melhor Diretor. Um prêmio mais do que merecido — e um lembrete de que o amor, nas mãos de del Toro, nunca é banal.
Em O Beco do Pesadelo (2021), ele trocou monstros por pessoas — e talvez por isso o resultado tenha sido ainda mais assustador. Um mergulho no universo dos charlatões e mentalistas dos anos 40, provando que o verdadeiro horror pode estar nas ilusões humanas.

Frankenstein e o retorno do sonho
E então, enfim, veio Frankenstein (2025). Del Toro dizia há décadas que sonhava em fazer esse filme — e a espera valeu cada minuto. A adaptação do clássico de Mary Shelley é tudo o que se esperava dele: sombria, delicada, trágica e incrivelmente bonita. O elenco (Jacob Elordi, Oscar Isaac, Mia Goth) entrega atuações intensas, mas é a direção que brilha. Ele trata o monstro não como vilão, e sim como reflexo de um criador atormentado — uma metáfora perfeita para a nossa eterna busca por aceitação.
O público parece concordar. O filme foi ovacionado em Veneza e já é apontado como um dos grandes sucessos do ano. Mais do que isso: é um retorno ao melhor de del Toro — o artista que nos faz olhar para o abismo e enxergar beleza.

Um legado vivo
Guillermo del Toro não faz apenas cinema. Ele constrói mundos, desperta empatia e nos convida a abraçar aquilo que tememos. Talvez por isso eu o admire tanto: porque, no fundo, seus monstros são só uma maneira poética de falar de nós mesmos.
E, depois de assistir Frankenstein, fica a certeza de que ele continua sendo o mesmo visionário apaixonado — aquele que transforma o medo em arte, e a escuridão, em luz.