
Nas últimas semanas, vídeos de influenciadores e especialistas têm levantado um ponto curioso, e incômodo: os jogos atuais não apenas entretêm, eles treinam o cérebro. Mais especificamente, treinam o cérebro a buscar dopamina em ciclos curtos e constantes, algo bem diferente do que acontecia no início dos anos 90, quando os jogos começaram a ganhar protagonismo na vida dos jovens.
Naquela época, consoles como o Super Nintendo e o Mega Drive ofereciam desafios progressivos, mas duros. Jogos como Street Fighter II ou Super Mario World exigiam paciência, repetição e resiliência. Errar fazia parte do processo. Perder significava voltar ao início da fase — às vezes do jogo inteiro. Não havia atalhos emocionais. A recompensa vinha depois do esforço, não antes.
Era frustrante, sim. Mas essa frustração ensinava algo essencial: nem toda vitória é imediata e, muitas vezes, é preciso começar tudo de novo.
O cenário atual é outro. Jogos modernos como Fortnite, Roblox e Minecraft são construídos sobre uma lógica diferente. Eles oferecem recompensas o tempo todo: subir de nível, ganhar um item, desbloquear uma skin, completar uma missão diária, receber um bônus por entrar no jogo. Cada pequena conquista gera uma descarga de dopamina — o neurotransmissor associado à sensação de prazer e recompensa.
O resultado é um ciclo contínuo de microvitórias. O jogador quase nunca perde de verdade. Quando perde, rapidamente é recompensado de outra forma. Sempre há algo positivo acontecendo, mesmo sem grande esforço ou superação real.
O problema, segundo os especialistas, não está na dopamina em si — ela é natural e necessária — mas na frequência e na facilidade com que ela é acionada. Aos poucos, o cérebro se acostuma a recompensas rápidas e constantes. Fora do jogo, a vida real parece lenta, injusta e exigente demais. Não há pontos por tentar. Não há bônus por insistir. Não há botão de “recomeçar” sem custo.
Isso ajuda a explicar por que muitos jovens demonstram dificuldade crescente em lidar com frustrações, processos longos e falhas que exigem reconstrução do zero. Não porque sejam fracos ou desinteressados, mas porque foram treinados em ambientes onde quase nunca se perde tudo.
Nada disso transforma os videogames em vilões. Eles continuam sendo ferramentas poderosas de criatividade, socialização e aprendizado. O alerta é outro: quando o jogo passa a ser o principal espaço de recompensa emocional, ele começa a moldar expectativas irreais sobre esforço, tempo e resultado.
Talvez a grande diferença entre o início dos anos 90 e hoje não esteja na tecnologia, mas na pedagogia invisível embutida nos jogos. Antes, aprendia-se que perder fazia parte. Hoje, aprende-se que sempre há uma recompensa esperando logo adiante.
Cabe aos adultos — pais, educadores e à própria sociedade — ajudar a reequilibrar essa equação. Mostrar que a vida real não entrega microvitórias o tempo todo, mas que as grandes conquistas, quando vêm, são muito mais sólidas e duradouras.
Porque dopamina é ótima. Mas resiliência ainda é insubstituível.





