A entrada de Batatais na Rota Mogiana da Cachaça reforça o protagonismo do município no cenário do turismo rural e da produção artesanal de qualidade. Um dos nomes diretamente ligados a esse momento é o da engenheira agrônoma Laura Vicentini, sócia da Spinagro e criadora da cachaça Sôzé, produzida com foco em sustentabilidade, rastreabilidade e economia circular.
Nesta entrevista ao JC – Jornal da Cidade, Laura fala sobre sua trajetória no campo, a relação entre ciência e tradição, o conceito “do campo ao copo” e o significado de ver Batatais integrada oficialmente à rota paulista da cachaça.

JC – Você cresceu no interior de São Paulo, em meio às plantações. De que forma essa vivência na zona rural influenciou sua escolha pela Engenharia Agronômica e, mais tarde, pela produção de cachaça?
Laura Vicentini – Com certeza a vivência no campo me influenciou na escolha pela Agronomia, pois sempre me encantei com a produção e a vida rural. Já a produção da cachaça foi uma oportunidade que a vida nos deu, por conta do nosso negócio inicial, que é a produção de mudas pré-brotadas. Não há histórico de produção de cachaça nem na minha família nem na do meu marido e sócio.
JC – O que mais te encantou na cultura da cana a ponto de transformar esse conhecimento técnico em um projeto de vida e de negócio?
Laura Vicentini – Foi quando comecei a montar meu experimento, que seria meu TCC, em uma usina, ainda no terceiro ano da faculdade. Até então, a cana me parecia simples demais e eu tinha até certo preconceito. Ao trabalhar com manejo integrado de pragas em uma das maiores usinas do Brasil, percebi a riqueza dessa cultura, com inúmeras possibilidades de manejo, variedades e controles. A cana marcou minha jornada acadêmica e nunca mais saiu da minha vida.
JC – A Spinagro nasceu focada em mudas de cana-de-açúcar. Como essa experiência técnica contribuiu para a criação da cachaça Sôzé?
Laura Vicentini – Desde o manejo do nosso canavial, totalmente orgânico, até a entrega da muda, o cuidado precisa ser extremo. Essas características — padronização, esmero e atenção — foram aplicadas também na produção da cachaça. Não é apenas fermentar e destilar o caldo da cana; é avaliar o sensorial, manter limpeza rigorosa nos processos e dar destino correto ao que não atende ao padrão da bebida, garantindo uma produção circular, limpa e de alta qualidade.
JC – De que forma a pesquisa, a seleção genética e o manejo sustentável impactam a qualidade da cachaça?
Laura Vicentini – A cachaça carrega a história da cana. Quando falamos “do campo ao copo”, estamos falando de maturação correta, nutrição equilibrada, controle natural de pragas e regeneração do solo. Embora a destilação padronize os sabores, o frescor desse manejo e o conceito natural ficam impressos no sensorial da bebida, que se torna mais leve e fresca.
JC – Você acredita que o agronegócio vive uma transição entre produtividade e sustentabilidade? Onde a Spinagro e a Sôzé se encaixam nesse cenário?
Laura Vicentini – Vemos um crescimento de produtividade alinhado à sustentabilidade. Muitos estudos mostram que práticas com biodefensivos entregam mais produção, com menor custo no médio e longo prazo. Produtividade e sustentabilidade caminham juntas quando se deseja produzir mais, de forma segura e próspera.
JC – A Sôzé nasce com a proposta de ser uma cachaça 100% sustentável. O que isso significa na prática?
Laura Vicentini – Significa que a matéria-prima é aproveitada de forma integral, inclusive resíduos nobres da produção de mudas. Usamos apenas bioinsumos, fazemos contabilidade ambiental do solo, regeneração contínua e temos rastreabilidade total do canavial. Cada resíduo tem destino correto ou se transforma em novo produto.
JC – Quais processos sustentáveis diferenciam a Sôzé das cachaças tradicionais?
Laura Vicentini – A circularidade. Bagaço, folhas e vinhaça são compostados com cama de frango dos aviários da fazenda e se transformam em adubo orgânico, dispensando o uso de adubos químicos. Além disso, há um trabalho constante de educação ambiental de quem produz e de quem consome.

JC – Batatais passou a integrar oficialmente a Rota Mogiana da Cachaça. O que essa conquista representa para vocês?
Laura Vicentini – Representa muito orgulho. Batatais mostra sua capacidade produtiva, de geração de renda e de qualidade. Somos uma Estância Turística com muitas belezas, e acreditamos que nossa cachaça seja uma delas, harmonizada com outros sabores da terra, como o café e o queijo. A inclusão na rota dá ainda mais visibilidade à cidade.
JC – Qual é o potencial da região da Mogiana para se consolidar como referência nacional em cachaça de qualidade?
Laura Vicentini – A qualidade já é reconhecida. Acredito que possamos nos consolidar como referência nacional em produção sustentável e harmônica, graças à economia circular praticada na região.
JC – Como a Sôzé ajuda a contar a história do território e da tradição agrícola de Batatais?
Laura Vicentini – O próprio nome homenageia um produtor rural que já se preocupava com sustentabilidade muito antes disso ser uma exigência. Contamos a história de produtores tradicionais da cidade, pequenos em área, mas gigantes em trabalho e legado.
JC – Que mensagem você deixa para jovens do interior que desejam unir formação técnica, inovação e respeito ao meio ambiente?
Laura Vicentini – Valorizem a própria história e o legado de quem veio antes. A técnica é essencial, mas nada substitui a identidade da terra. O manejo sustentável, muitas vezes, resgata práticas antigas. O plantio de hoje é a colheita de amanhã.





