
Caros leitores e leitoras, pensando nas cidades para além de suas edificações, esta edição nos levará, ao início do século XX, em busca dos primeiros espaços abertos arborizados, como praças, parques e bosques existentes em nosso município. Foi neste período que espaços de lazer e recreação, geralmente públicos, passam a ser desejados pela população e, ao longo do tempo, foram organizados pela municipalidade.
CAPÃO
Nos idos de 1910, a população e a administração do município de Batatais desejaram um espaço aberto, bosque ou horto botânico, para as famílias locais e visitantes passarem momentos agradáveis de lazer à sombra de árvores e arbustos, inspirando saúde e frescor com alguma estrutura como, por exemplo, bancos, mesas, trilhas, banheiros, iluminação, segurança, mirante, coreto etc.
Este movimento fazia parte de um novo contexto urbanístico de traçado das cidades entre o final do século XVIII e início do XIX, e o local escolhido em Batatais foi na cabeceira do Córrego do Capão, que nasce nos altos da atual Rua Coronel Joaquim Alves, no bairro do Riachuelo, “numa das extremidades da cidade” considerado “um dos pontos preferidos pelas famílias do lugar para passeios domingueiros” desde os idos de 1880 (FRANS, 1939, p.118).
O projeto de construção de um horto botânico no aludido local foi noticiado na Gazeta de Batatais em edições de fevereiro de 1911, porém não foi encontrada mais nenhuma referência à estruturação de um espaço aberto de lazer nos arredores das cabeceiras do Capão.
“Soubemos que a Prefeitura Municipal, pretende transformar em horto botânico, o terreno do Capão no fim da rua direita desta cidade. Oportunamente, os leitores serão informados a este respeito”. (GAZETA DE BATATAIS, 5/2/1911)
“Com grande satisfação confirmamos o que consta no número passado publicamos a respeito do Horto Botânico. Sabemos de fonte segura que caso o Governo do Estado não aceite o terreno do Capão para construção do Posto Zootécnico, será o mesmo adquirido pela administração municipal que transformá-lo-á em Horto Botânico. Será um grande melhoramento para a nossa cidade que terá no atual Capão além de um local para experiências agrícolas, um ótimo ponto para passeio. Será também erguido em local apropriado um mirante para concertos musicais nos dias uteis. O manancial d’agua lá existente e que atualmente serve a boa parte da população será conservado abastecendo também o Horto”. (GAZETA DE BATATAIS, 12/2/1911)
Passados 30 anos da tentativa infrutífera de se criar um espaço verde público na cidade, ressurge novamente a pressão na imprensa por esses locais, impulsionados, principalmente, pela existência de logradouros semelhantes em cidades vizinhas, como Ribeirão Preto, mantendo a proposta das cabeceiras do Capão, com água, arborização em abundância e fácil acesso.
“UM HORTO – Quem visita em Ribeirão Preto, o chamado “Bosque” tem verdadeiro prazer em percorrer suas alamedas de cascalho miúdo, sombreadas por árvores amigas e vê, com o sorriso nos lábios as crianças brincando nas gangorras, balanços, ou saltando sobre a grama fresca.
Para uma cidade como a vizinha Ribeirão, onde o calor é um fato, a criação do citado “Bosque” veio representar um melhoramento sensível. E de que maneira procedeu Ribeirão Preto, tratou de fazer como todos os grandes centros, vindo a oferecer ao público, lugares amenos, onde se possa passar algumas horas de folga.
Assim, pois, vimos lembrar hoje uma antiga nota nossa concitando a Prefeitura a depois de fazer um estudo do local, ir adaptando o nosso Capão, para um ameno logradouro do nosso povo.
Concordamos com a sua localização apresentaria as mesmas distâncias ao povo da Cidade e ao povo do Castelo, sendo que a se realizar essa ideia, só daqui a alguns anos estará mesmo em condições de se franqueado ao público, e, como nossa Batatais, fechada a Norte pelas divisas do patrimônio, tende a crescer para direção Sudoeste, teremos talvez dentro de alguns anos o citado local completamente fechado por novas e futuras edificações.
E o que custará o aludido serviço?
Nada, quase, no momento pois o mesmo, depois de elaborada a planta necessária, se resumirá em plantar algumas árvores, zelando pelo seu crescimento.” (FOLHA DE BATATAIS, 15/1/1939)
Existia, porém, o grupo que não concordava com a organização de um bosque nos altos do Capão, citando outra área verde recém desbravada para se tornar o tão esperado espaço verde de lazer: a região defronte ao então recém-inaugurado Centro de Cultura Física de Batatais, cruzando o decurso do próprio Córrego do Capão, numa região mais próxima ao centro da cidade (próximo ao antigo Mercado Municipal).
“Os nossos brilhantes colegas da ‘Folha’ vivem a insistir sobre a necessidade de se cuidar, sem tardança, da formação de um bosque no local do antigo Capão. Aos estimados colegas, com a devida vênia, lembramos a nenhuma procedência desse pedido, pois, julgamos que um só bosque é o bastante. Dois é demais… O que faremos do que se está formando na Rua da Piscina? Um chega muito.” (O JORNAL, 11/5/1938)

CACHOEIRA
Outro local sugerido, na década de 40, para tornar-se uma área recreativa organizada, desde há muito frequentada pela população foi a conhecida Cachoeira; porém o projeto não deu prosseguimento na época.
“SE FOSSE POSSÍVEL … – Batatais, (…) não possui logradouros públicos, pontos de atração e distração. (…) Aqui, em absoluto não temos local algum digno de se ver, de só passar algumas horas. E, no entanto, a natureza colocou aqui bem perto um amontoado de águas e pedras, dignos de ser visto e apreciado.
E, se, com inteligência, com estudo e vagar, homens houvessem que, compreendendo a necessidade do povo, fossem adaptando, fossem melhorando o local… Queremos nos referir a Cachoeira.
Ali, com uma ou duas dezenas de contos de réis poder-se-ia fazer uma magnífica e enorme represa, bem no local onde já existe a da Empresa, formando com a mesma uma linda cascata, dando belíssima visão sobre a atual passagem da estrada.
E todos nós teríamos aqui perto, muito acessível magnifico local onde passar tardes domingueiras, percorrendo em botes ou canoas as águas da represa, tal como o faz o paulistano na represa de Santo Amaro.
Seria magnifico, não? Mas é impraticável!” (FOLHA DE BATATAIS, 25/5/1940)
A transformação da Cachoeira em um parque náutico começou a sair do plano das ideias na década de 50 e tornou-se uma área organizada de acesso público, na administração municipal do Dr. Alberto Gaspar Gomes:
“REPRESA DA CACHOEIRA – (…) construção da barragem das águas do velho ribeirão da Cachoeira. Um trabalho que somente tem merecido os mais entusiastas aplausos por parte da população batataense que vê na represa da Cachoeira o seu ponto predileto para o descanso em dias de folga. Há 15 dias aproximadamente que a Represa vem sendo frequentada por todas as classes sociais da nossa cidade que para lá se dirigem afim de apreciar a monumental barragem. Com mais de mil e duzentos metros de extensão por aproximadamente duzentos de largura, a Represa da Cachoeira barra nada menos que 4 milhões de litros de água, o que vem atestar a grandiosidade das construções. Apesar da parte recreativa ainda não estar concluída, mesmo assim os batataenses utilizam-na para a natação. (…) – Pedro Bérgamo. (O JORNAL, 24/4/1955)

BOSQUE DE EUCALIPTOS
Também entre final da década de 30 e início da década de 40, cogita-se como logradouro público de lazer e recreação da população a região próxima ao atual campo de futebol do Batatais Futebol Clube, nomeada na época de Bosque de Eucaliptos, ao final da atual Rua Barão de Cotegipe. Local que entre 1830 e 1890 abrigava o cemitério paroquial, murado por taipas e com túmulos colossais, de acordo com Jean de Frans.Por esse motivo, a atual Rua Barão de Cotegipe foi anteriormente chamada de Rua do Cemitério ou Rua do Cemitério Velho, e depois popularmente de Rua do Cemitério do Bosque.
“O BOSQUE – em um dos cantos de nossa terra ergue-se majestoso e solitário, como mãos espalmadas para o Infinito, o Bosque. Feito por árvores altas de eucaliptos por sobre um lugar onde nossos antepassados, talvez, tiveram o abrigo do descanso eterno. Aqueles, que foram muita vez a razão de ser de nossa vida, serviram depois da morte, de seiva para o arvoredo que ali se desenvolveu rápido e esbelto. A noite, quando a cidade dorme esquecida de si mesmo, a lua borda no chão uma renda de prata feita de peneira da folhagem, e o vento chicoteia as árvores imensas, a gente parece como que a ouvir a voz dos nossos mortos rasgando o céu, pedindo talvez a oração dos vivos, pedindo na vozeira dos eucaliptos fincados no chão, talvez com as raízes em seu peito, uma lembrança que para os seus que ainda vivem. Em meio ao bosque ergue-se um cruzeiro negro, de braços abertos para o céu, parece dizer aos que passam: _ Voz que passam, vede o campo dos mortos, eis que resume a vida. Sois pó, e em pó vos haveis de torrar… Assim, daqui algum tempo, em menos de cem anos, todos nós estaremos envolvidos na poesia divinal da Natureza, cantando na balada do vento, enquanto nossa alma junto ao Criador, na glória eterna…
Quadra verde de eucaliptos são altos, tu representas o Bosque da minha terra, um quadro em alto relevo da grande saudade que nós temos por aqueles que a teus pés repousam, rezando na voz da folhagem ou se exalando aos poucos no cheiro suave de eucalipto… APACÊ, 5/10/38.” (FOLHA DE BATATAIS, 8/10/1938)

Com o desaparecimento do cemitério, toda a região foi se transformando numa densa área arborizada, sobretudo de eucaliptos, o que a população tratou de nomear Bosque de Eucaliptos, também chamado num período de Bosque Municipal ou simplesmente Bosque. Embora a área verde recebesse o título de Bosque, não possuía infraestrutura para lazer e recreação da população até aquele momento.
Acreditamos que os eucaliptos ali existentes foram plantados na década de 10, conforme documentação existente no acervo da Câmara Municipal. Trata-se de um ofício da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas do estado de São Paulo datado de 3 de dezembro de 1910, comunicando o envio de “150 mudas de eucaliptos” em resposta a um pedido da municipalidade.

No final da década de 30, a região do Bosque de Eucaliptos passa a ser tema de debate popular. A população e a municipalidade se dividem: uns protestam sobre a derrubada sistemática dos eucaliptos, outros desejam que o espaço permaneça com os eucaliptos, mas restruturado para ser local de recreação da população e outros desejam a sua total extinção para construção de casas de habitação e praça.
O artigo abaixo direcionado ao pároco local, o Monsenhor Joaquim Alves Ferreira é um protesto contra a intenção de derrubada das arvores para urbanização da região. Para tal, o autor pedia que o lugar não fosse destruído em memória aos mortos ali enterrados e às árvores ali existentes:
“O BOSQUE DE EUCALIPTOS – Ao Mons. Joaquim Alves – Ouvimos dizer, mas não acreditamos que o bosque de eucaliptos existente em frente ao campo de esportes está ameaçado de destruição para em seu lugar serem edificadas casas de habitação. A nosso ver é uma dupla profanação. Batatais é uma cidade católica como poucas. E que não o fosse, o respeito aos mortos não é dado só aos católicos, todas as religiões o professam. Ora o bosque de eucaliptos foi um Campo Santo, um Cemitério. Ali repousam os restos mortais dos avôs de muitos que aqui vivem. Hoje é um bosque, mas como nada se cria e nada se perde, dentro desse bosque, nas profundezas de suas raízes ou no cimo de suas copas, estão os mesmos componentes que transitaram pelas ruas que passamos, que foram conduzidos inertes à igreja com todo o cerimonial católico e depois ali depositados para eterno repouso. Quem de nós ousará levantar uma casa dentro do bosque de eucaliptos que é necrópole? Quem, existindo tantos terrenos vagos para essa cidade, irá profanar um cemitério e destruir não uma árvore, mas centenas delas?
Que no bosque, em frente ao campo de esportes, repousem em paz os restos mortais das gerações que aqui viveram e que os belos eucaliptos que os abrigam com sua fresca sombra continuem a crescer muito e cada vez mais, quebrando a impetuosidade dos ventos e purificando ar com sua fragrância e verdura. São os votos que faz um amigo das árvores”. (TRIBUNA DE BATATAIS, 27/9/1936)
Já o artigo a seguir denuncia que aos poucos a região do Bosque dos Eucaliptos vai sendo desmatada pela Prefeitura. O autor pontua ainda, a falta de espaços verdes que sirvam de lazer na zona urbana de Batatais.
“EUCALIPTOS – Aos poucos vai-se extinguindo o bosque de eucaliptos localizado no fim da rua Barão de Cotegipe. São inúmeras as árvores que, cortadas pelo machado manejado pelos empregados da Prefeitura, deixam seu lugar tocos mal aparados, testemunhas mudas, mas eloquentes da vontade de se acharem com as árvores amigas, a cuja sombra repousam os corpos dos nossos antepassados. É pena que isso suceda, pois Batatais é uma cidade sem pontos amenos. Exceção feita dos nossos jardins, não existe na cidade ponto algum que sirva para um logradouro público. Ao passo que vemos que os governos das grandes cidades se esforçam para organizar, criar, construir grandes logradouros públicos, nós vemos que aqui na nossa Batatais se cogita de tal. Pelo contrário até – acabam-se com os pequenos, insignificantes que existem. Não será, pois sem motivo o nosso apelo para que não se distribuiu o pouco que temos, já que não se pensa em construir. A Prefeitura deve deixar o bosque como está, sem cortar mais uma árvore sequer. Quem sabe se num futuro próximo a Câmara poderá, arranjando o melhor e iluminando-o, vir a nós dar um lugar ameno e agradável?” (FOLHA DE BATATAIS, 22/5/1937)
Os trechos abaixo, em momentos distintos, apresentam apoio da equipe do periódico Folha de Batatais, contrários ao desmatamento, encampado pelos alunos do Grupo Escolar Rural, situado há poucos quilômetros do dito bosque de eucaliptos, à entrada do Bairro Potreiro, próximo à Capela Santo Antônio.
“EUCALIPTOS – Nós, aqui dessas colunas, aplaudimos o pedido que os alunos do Grupo Rural fizeram ao sr. Prefeito Municipal afim de que não se derrubasse as árvores do Bosque de Eucaliptos. E parecia que depois daquele pedido nem mais uma árvore cairia ceifada pelo machado manejado por ordem da Prefeitura. Puro engano. Periodicamente, em épocas espaçadas, são derrubadas mais algumas árvores amigas que vão servir de pontes, postes e outros serviços vários. E as clareiras do Bosque de Eucaliptos crescem, sempre crescem… e dentro desse pouco tempo ali, onde hoje se erguem ainda algumas soberbas e majestosas árvores, a cuja sombra amiga repousam os nossos antepassados, não se verá mais do que tocos apodrecidos, a lembrar que alguns homens desfizerem com o machado, um bosque criado dentro da cidade, pela iniciativa de João de Andrade.” (FOLHA DE BATATAIS, 6/2/1937)
“EUCALIPTOS – Apoiamos plenamente o apelo dos alunos do Grupo Rural, ao sr. Prefeito da cidade, em não mandar cortar o bosque de eucaliptos, existente no alto da cidade, em frente ao campo do BFC. Pois se em uma ocasião em que vem se desenvolvendo a campanha de reflorestamento de terras que já foram férteis, e que de novo poderão se tornarem boas, se delas cuidarmos, vamos destruir um tão estímulo aquela iniciativa? Falam em aproveitar o terreno para ser vendido em datas para construções e também vender a madeira. Terrenos a prefeitura tem em quantidade enorme ao redor da cidade, e madeira que temos tanto, é até criancice pensar nas toras de eucaliptos. Todos nós temos lido bastante sobre eucaliptos e sabemos que é uma madeira que pode ser empregada, mas com pouca probabilidade de duração, pois empena e racha com muita facilidade, a esse respeito a Cia Paulista de Estrada de Ferro cansou-se de fazer experiencias. Deixemos as pobres árvores em pé. Elas não fazem política e nem dizem mal de ninguém. O que elas fazem é para nosso bem, purificam o ar, embelezam a cidade, e talvez nas noites frias e chuvosas, choremos seus ramos açoitados pelo vento, a dor de uma saudade, pelas almas dos corpos que descansam entre suas raízes, e que por nós já não são lembrados. O que nos torna necessário, isso sim, é arranjar o bosque municipal, iluminá-lo, tornando-o enfim um logradouro agradável e útil a cidade. E, cortadas as árvores cujos sacrifícios seja necessário, que se conserve as outras com carinho, como amigas que são.” (FOLHA DE BATATAIS, 10/10/1937)
No mesmo período, cogitou-se a construção de um parque infantil na região do Bosque de Eucaliptos, mas o projeto não teve seguimento:
“BELO PROJETO – Tivemos o prazer de ver exposto na vitrine da Casa Cruzeiro um belo projeto de um parque, estudado para ser localizado no atual bosque de eucaliptos, notando mais sugestivo título aos mortos dando vida aos vivos.
Francamente, o projeto em questão é digno de elogios e também de se trabalhar pela sua execução, notando-se ali a modelar piscina infantil, o teatrinho, os balanços, etc. Mas o que achamos é que a localização do parque infantil pode ser melhor estudada em outro local, o que viria beneficiar uma das muitas praças que na cidade precisam ser tratadas. (…) E teríamos poupado a vida dos eucaliptos do bosque em frente a nossa praça de esportes. Não que em nossa opinião não se possa derrubá-los. Absolutamente, não. O que achamos é que, existindo outros locais que precisam de melhoramentos, não se deve destruir um bosque que, ao menos na opinião de muitos batataenses, nós inclusive, representa um belo recanto de nossa cidade, opinião esta que será a de todos se se fizer ali os pequenos serviços necessários para sua completa adaptação.” (FOLHA DE BATATAIS, 10/10/1937)
Em 1948, quando a cidade era dirigida por Américo Gaeta, foi novamente cogitado a instalação de um espaço verde organizado na cidade. A indicação foi feita pelos então vereadores Anselmo Testa, Josino Meirelles e Benedito Marques de Souza em sessão da Câmara Municipal no dia 01 de junho de 1948. O espaço pensado para o empreendimento foi o das imediações do campo de futebol do Batatais Futebol Clube, na região do Bosque de Eucaliptos: “(…) transformando-o em aprazível logradouro público.” (O JORNAL, 7/3/1948)
“A NOTA DA SEMANA – Ao que estamos lembrados, a Câmara Municipal de Batatais, numa de suas primeiras sessões, indicou ao Executivo Municipal, que promovesse o estudo necessário à transformação do atual Bosque em um logradouro público. Isto, aproveitando a majestosa arborização ali existente, na sua totalidade. Outrossim, o plano em referência devia incluir a iluminação do local. Razões de diversas ordens fundamentaram a indicação em reporte. E todas elas da maior relevância. Assim, foi considerado o motivo estético: o motivo da convivência pública e ainda o da possibilidade de meios, imprescindível para o caso. Inegavelmente, este melhoramento muito representará para a nossa cidade, como embelezamento.
Outrossim, neste sentido, é de se ponderar que o referido local se situando nas proximidades da Praça de Esportes do Batatais F.C., a que dá acesso, faz-se um dos mais vistos pelas pessoas que visitam nossa cidade.
Ademais, é certo que não possuímos nenhum logradouro da espécie, e sua feitura, num dos bairros mais esquecidos dos benefícios públicos, terá dupla funcionalidade: o interesse que ele pode proporcionar, como meio de recreação, além de representar, até certo ponto, ato reparatório (…).” (O JORNAL, 26/6/1948)
Mais uma vez, o projeto de espaço verde planejado na região do Bosque de Eucaliptos não aconteceu; ao contrário, os eucaliptos foram sistematicamente retirados, endossadas por leis municipais que decretavam a derrubada das árvores daquela região.
A Lei Municipal n.º 98 de 6 de março de 1951, “autorizou a derrubada das árvores do Bosque Municipal, fronteiriço à praça de esportes do Batatais Futebol Clube, existente entre as Ruas Gustavo Simioni e Manoel Gustavino, desta cidade.” A mesma lei criou no local, uma “praça com ajardinamento e arborização adequada”. (O JORNAL, 18/3/1951)
A decisão da municipalidade, representada pelo prefeito Dr. Jorge Nazar (1948-1951), em derrubar o Bosque de Eucaliptos dividiu a população.Entre as alegações contrárias a decisão de derrubada dos eucaliptos está a justificativa da preservação da área verde.
O BOSQUE DE BATATAIS – não posso fugir ao dever de tratar do caso referente à destruição dos eucaliptos plantados há muitos anos, situado em frente ao campo de esportes, após apelo que fiz aos poderes públicos municipais, Prefeitura e Câmara. (…) o Dr. Prefeito Municipal, entre outras coisas, alega que naquele local, escuro e silencioso, à noite, em horas mais tardias, são praticados atos atentatórios a moral; que aos poucos os moradores daquele trecho vivem apavorados pelo medo de que acidentes possam ser provocados pelo desabamento daquelas árvores, que se acham próximas às casas, que ainda acresce o fato de o local estar sempre contendo sujeira, provocada pelos arbustos e folhas que se desprendem e mesmo pelos que ali frequentam, não existindo um ambiente de limpeza e asseio.
(…) para sanar esses senões, essas falhas … é sabido que tais meios estão às mãos dos que governam e podem ser aplicados a qualquer momento. Para fazer cessar os atos atentatórios à moral que ali se praticam, existe uma polícia de costumes que deve exercer com energia e vigor sua ação repressiva, não somente ali, mas em todos os pontos da cidade.
Se, naquele lugar se acumulam sujeiras, a Prefeitura deve manter pessoal suficiente para a limpeza precisa, evitando assim o acúmulo de lixo em um local que dever ser frequentado pelo público.
Se, por outro lado, realmente existe o perigo eminente de acidente, pelo desmoronamento de árvores sobre casas, porque não cortar somente as que oferecem tal perigo e conservar a maior parte?
Alega-se mais que é muito bonito manter tradição, mas quando essa tradição vem de encontro ao interesse público e causam danos devem ser extintas. Não nos conta que a manutenção e conservação dos eucaliptos onde se acham, possa causar prejuízos ao interesse público, danos ao povo. (…)
não vejo como podem os responsáveis pelos destinos administrativos desta terra, justificar a medida de que querem lançar mãos, destruindo uma preciosidade que temos a ventura de possuir e que nos foi legada pela orientação segura de nossos caros antepassados.
Os motivos até agora apresentados não convencem e a destruição daquele bosque não tem apoio em base sólida. Tudo quanto possa ser feito ali, após o corte, o que não se fará, por certo, não compensará a destruição pretendida.
O terreno reflorestado (…) está em condições de ali se construir um parque infantil, aproveitando justamente o sombreamento daquelas árvores (…), acolhedoras e que tanto bem fazem à saúde. (…) que é ação errada, essa de demolir o que é bom, pois certo que, quando não podemos, não queremos ou não sabemos construir, não devemos destruir.
A tradição, no que tange a conservação do que é bom e belo, não deve ser interrompido, se realmente queremos progredir e honrar a memória de nossos antepassados, demonstrando amor à terra em que vivemos. (…) As. Carlos Figueiredo Júnior. (O JORNAL, 11/3/1951)
Já as autoridades favoráveis à derrubada do Bosque de Eucaliptos alegavam que a região oferecia perigos de diversas ordens pela densidade das árvores, além da sujeira do local. Por isso, justificavam a remoção dos eucaliptos.
Em 1951, a derrubada do arvoredo do Bosque de Eucaliptos se efetivou, sob a alegação do perigo que as árvores representavam para os moradores do entorno e da travessia até o campo de futebol e ao novo cemitério paroquial.
“PRAÇA NOSSA SENHORA APARECIDA – (…) O novo prefeito, Dr. Alberto Gaspar Gomes, logo que assumiu o cargo, mandou proceder à limpeza do terreno. (…) Lembramos, pois, ao Sr. Prefeito a necessidade de determinar a imediata urbanização da Praça N. S. Aparecida, cujo serviço, além de constituir uma obrigação assumida pelo seu antecessor ao aceitar a condição de extinguir o bosque, representa satisfação ao povo.” (FOLHA DE BATATAIS, 3/5/1953)
“PRAÇA NOSSA SENHORA APARECIDA – No orçamento do corrente ano foi consignado uma verba para o arranjo da Praça Nossa Senhora Aparecida, antigo bosque de eucaliptos. (…) . fronteiriça à praça de esportes do Batatais F.C., onde está sendo construído o majestoso “Estádio Dr. Oswaldo Scatena”, impõe-se sem dúvida que seja ela um complemento da sua grandiosidade (…).” (FOLHA DE BATATAIS, 15/8/1953)

Coube ao prefeito, Dr. Alberto Gaspar Gomes (1952-1955), nomear e iniciar a urbanização do espaço que ocupava o antigo Bosque de Eucaliptos. Como tratado, o local tornou-se uma praça que foi nomeada de Praça Nossa Senhora Aparecida pela Lei Municipal nº 164, de 10 de dezembro de 1952, e aos poucos a região passou a ser largamente habitada. (O JORNAL, 3/1/1953)
Podemos afirmar que os sonhados espaços verdes de lazer e desporto foram concretizados de alguma forma, pois nos anos de 1990, após muitas transformações urbanísticas e canalização do Córrego do Capão, surgiu numa pequena parte do que foi o antigo Capão, o atual Parque das Nascentes ‘Ataliba Martins de Moura’. A Cachoeira foi passando por diversas modificações ao longo tempo e atualmente recebe o nome do engenheiro responsável pelo represamento daquelas águas: Parque Náutico ‘Engenheiro Carlos Zamboni’. Até mesmo o sonhado Bosque de Eucaliptos, não permaneceu no local de origem, mas foi concretizado com o Bosque Municipal Dr. Alberto Gaspar Gomes, que será tema de nossa próxima edição.





