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Um modelo que envelheceu

A tradicional escala 6×1 — seis dias de trabalho para apenas um de descanso — começa a perder apoio até mesmo entre empresários. Nascida no século XX, quando a produtividade era medida em horas e não em bem-estar, essa lógica tornou-se alvo de críticas sociais, sindicais e acadêmicas. Hoje, mostra-se insustentável diante das novas demandas por saúde mental, equilíbrio pessoal e qualidade de vida. O foco exclusivo na produção constante ignora a dimensão humana do trabalho.
Segundo o Atlas da Escala 6×1 (2024), 46% dos brasileiros submetidos a essa jornada recebem entre R$ 1.412 e R$ 2.120, enquanto outros 22% ganham apenas um salário mínimo. Mais da metade relatam problemas de saúde mental, e 87% afirmam que a vida pessoal foi diretamente prejudicada pela rotina exaustiva.
Agora, uma nova geração começa a questionar esse modelo. A geração Z — nascida entre o fim dos anos 1990 e o início da década de 2010 — passa a liderar uma mudança de mentalidade sobre o trabalho. Eles não querem jornadas abusivas; buscam qualidade de vida, tempo livre e propósito. Não pretendem “mudar o mundo” como sonharam gerações anteriores, mas torná-lo mais humano.
Parte do empresariado ainda resiste à mudança, alegando aumento de custos e dificuldades operacionais, especialmente em setores que funcionam todos os dias, como comércio, alimentação e transporte. Por outro lado, cresce o número de empresários que reconhece a transformação no comportamento dos trabalhadores.
Com a escassez de jovens dispostos a aceitar regimes intensivos, muitos já admitem a necessidade de flexibilizar escalas e repensar benefícios, entendendo que trabalhar menos pode significar produzir melhor. Reduzir horas não é produzir menos — é produzir com mais qualidade.

O debate expõe um dilema nacional: como equilibrar produtividade e bem-estar?
Especialistas defendem que a geração Z tem papel estratégico nessa virada. Sua recusa em aceitar jornadas exaustivas é também um ato político: redefine o valor do tempo e do trabalho. Não se trata apenas de descansar mais, mas de viver melhor.
O debate sobre o fim da escala 6×1 não é apenas econômico — é civilizatório. E a geração Z compreende isso intuitivamente: quer tempo para viver, e não apenas para produzir. Ao defender um trabalho mais digno e humano, essa juventude reafirma um princípio que muitos insistem em esquecer: o futuro cabe em menos horas.