
Lembro-me de estar sentado no sofá, ainda garoto, diante da televisão de tubo, fascinado por aquele universo de luzes azuis e vermelhas que pareciam saídas de outro planeta. Era o primeiro Tron, de 1982. Eu não compreendia todos os conceitos — programas, usuários, mainframes —, mas algo naquela mistura de computação e humanidade me capturou. Era o prenúncio de um mundo onde a tecnologia começava a nos olhar de volta.
O filme, dirigido por Steven Lisberger, foi uma ousadia para sua época: o primeiro a usar extensivamente gráficos de computador, antecipando discussões que só se tornariam reais décadas depois — sobre inteligência artificial, identidade digital e o controle das corporações sobre nossas vidas. Em Tron, os humanos criam o sistema, mas é o sistema que passa a ditar as regras. Uma metáfora poderosa sobre o risco de perdermos a liberdade no labirinto que nós mesmos projetamos.
O Legado
Anos mais tarde, já adulto e pai, voltei ao universo de Tron, desta vez com meus filhos ao lado, olhos brilhando diante de Tron: Legacy (2010). O som do Daft Punk preenchia a sala, e eu podia sentir o mesmo encantamento deles — aquele fascínio pelo digital, agora muito mais presente, quase palpável. O filme, com seu visual elegante e trilha impecável, aprofundava a crítica do original: a busca pela perfeição tecnológica e o preço da desconexão humana.
Kevin Flynn, agora um criador aprisionado em seu próprio sistema, parecia dialogar com todos nós, profissionais cercados por telas, algoritmos e metas. A fronteira entre criador e criatura havia se dissolvido. Era um espelho da sociedade que a tecnologia construiu — e na qual, com orgulho e um pouco de temor, eu já trabalhava.
Uma nova geração
E então veio o terceiro momento — Tron: Ares (nos cinemas). Dessa vez, não era mais apenas sobre o futuro das máquinas, mas sobre o futuro da própria família. Sentei-me novamente ao lado dos meus filhos, agora adultos, e vi minha filha, grávida de gêmeos, sorrindo entre as luzes vibrantes da tela.
O novo Tron ampliava a crítica do passado: a criação de entidades digitais com consciência própria e a velha pergunta — até onde vai o poder do criador? Mas para mim, a reflexão foi outra. Enquanto o filme falava de IA, sistemas e dilemas morais, eu pensava no ciclo que recomeçava. Naquela sala de cinema, entre as luzes artificiais e o brilho genuíno da vida, percebi que Tron sempre foi menos sobre tecnologia e mais sobre humanidade.
Afinal, o tempo passa, as gerações se renovam e os sistemas evoluem — mas a curiosidade, o afeto e o desejo de liberdade permanecem. Talvez, quando meus netos nascerem, encontrem esse mesmo fascínio diante de novas telas e novas histórias.
E eu espero que, em meio a tantos códigos e conexões, eles também aprendam que o verdadeiro programa somos nós — e que o amor é o único sistema que nunca falha.





